terça-feira, 27 de julho de 2010

Um pedacinho de Drummond

Poema das Sete Faces

Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.

As casas espiam os homens
que correm atrás das mulheres.
A tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos desejos.

O bonde passa cheio de pernas:
pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.
Porém meus olhos
não perguntam nada.

O homem atrás do bigode
é sério, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucos, raros amigos
o homem atrás dos óculos e do bigode.

Meu Deus, por que me abandonaste
se sabias que eu não era Deus
se sabias que eu era fraco.

Mundo mundo vasto mundo,
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.

Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.

Carlos Drummond de Andrade



Já fazia algum tempo que Drummond não vinha visitar o CONTRAPONTO. Resolvi abrir as portas novamente pra que ele entrasse. O motivo? TODOS, merecem se deliciar com as saborosas palavras desse Itabirano de sete faces. Essas palavras doces, calmas e hospitaleiras que todo bom mineiro sabe oferecer.

Leio os versos, e posso sentir a calma impregnada nas rimas, sentir como quem inspira para dentro de si o cheiro do café feito na hora e da broa de fubá acabada de sair do forno. Vejo fogão a lenha. Vejo faces, vejo cores. Mas principalmente, vejo sentimento. Vejo um mundo simples e belo, prestes a ser descoberto...E tento descobrir com as palavras vagantes e boêmias dele alguma novidade; Mas uma novidade antiga, que sempre esteve sem que eu percebesse. Drummond mostra-me meus bondes (e as pessoas viajando dentro deles), as paisagens escondidas bem dentro do meu coração, as memórias "muito mais que lindas" que para sempre ficarão. Ele me abre os olhos para a beleza simples da vida. Ele abre minhas portas para mim.

Pois é, Carlos, também sou gauche, também sou mineira...e também, "mais vasto é meu coração".

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Ser

Preciso
Teu colo,
Teu cheiro,
Meu cheiro,
Teu nome.
Despe-me,
Beija-me,
Abusa,
Me usa,
Me morde...
Sou fruta,
Pedaço,
Teu mundo,
Teu chão.
E sou Lua
Em glória!
Vitória!
Pedaço do teu coração.
Brilhante,
Tua noite.
Velando
Teu sono,
Tuas flores,
Amores.
Doçura,
Paixão.




...Trilha sonora: Finalmente (Ney Matogrosso/Pedro Luis e a Parede)...
"A vida toda eu esperei essa glória,
beijar mordendo esses teus lábios de fruta..."

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Costurando estrelas

Costurava estrelas quando chegaste.
Robusto e belo.
Brilhante e calmo.
Costurava e parei.
Observei teus caminhos.
Tive medo e não segui...
O céu me chamava aflito.

Costurava estrelas quando foste embora.
E eu continuei reticente.
Linha indo, linha voltando.
As estrelas brilhavam e eu as unia uma a uma,
sonho a sonho,
faina a faina,
tecendo uma rede brilhante.
Por toda a vida.
Lá de baixo, vejo contemplarem meu trabalho imenso
perdido nesse azul errante.
Lá em baixo eles sonham.
Lá embaixo eles amam.


segunda-feira, 12 de julho de 2010

Raio

Por Yasmin Lara e Márcio Vandré

Raio, brilhe em meus campos
enquanto flutuam meus pensamentos e eu.
Se há algo que traz meu canto, outra coisa inspira adeus.
Dentro sou tudo, completa e quase nada.
Buracos negros na alma,
espírito tentando ser livre
e sorrisos perdidos na estrada

E se quedo em pranto, outrora sou santo
e sendo santo, peco.
Um Deus punitivo me abre o peito.
Eu, pobre humano, nessa pena me enriqueço
E até me esqueço que ainda terá o amanhecer.

Raio que brilha em meus campos, vem e me faz renascer.

sábado, 10 de julho de 2010

Para Ele

Basta um pequeno instante
Roubado das horas passantes,
Uma pequena lembrança tua. E basta!
Nela viajo longe...
Ondulando em sonhos pros teus braços.