quinta-feira, 15 de abril de 2010

Dualidade

Somos dois.
Duas retas.
Dois traços.
Duas questões.
Duas palavras não ditas,
engasgadas no peito arfante.
Somos dois lados opostos.
Mas somos dois, apenas.
Desencontrados e paralelos.
Incompletos, enfim.

domingo, 4 de abril de 2010

Um tanto de Neruda

Escolhi para postar um dos poemas que mais gosto de Pablo Neruda. No momento, ele diz tudo. Ainda que minha caneta se cale. E eu também.

Posso escrever os versos mais tristes essa noite

Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Escrever, por exemplo:
"A noite está estrelada,e tiritam, azuis, os astros lá ao longe".
O vento da noite gira no céu e canta.
Posso escrever os versos mais tristes esta noite.

Eu a quis e por vezes ela também me quis.
Em noites como esta a tive entre meus braços.
Beijei-a tantas vezes sob o céu infinito.
Ela me quis, por vezes eu também a queria.
Como não ter amado os seus grandes olhos fixos?
Posso escrever os versos mais tristes esta noite.

Pensar que não a tenho, sentir que a perdi.
Ouvir a noite imensa, mais imensa sem ela.
E o verso cai na alma como no pasto o orvalho.
Importa lá que o meu amor não pudesse guardá-la?
A noite está estrelada e ela não está comigo.
Isso é tudo.
Ao longe alguém canta.
Ao longe.
A minha alma não se contenta com havê-la perdido.
Como para chegá-la a mim o meu olhar procura-a.
O meu coração procura-a, ela não está comigo.

A mesma noite que faz branquejar as mesmas árvores.
Nós dois, os de agora, já não somos os mesmos.
Já não a amo, é verdade, o mesmo tanto que a amei.
Minha voz buscava o vento para tocar-lhe o ouvido.

De outro. Será de outro.
Como antes dos meus beijos.
A voz, seu corpo claro.
Os seus olhos infinitos.
Já não a amo, é verdade, mas talvez a ame ainda.
É tão curto o amor, tão longo o esquecimento.

Porque em noites como esta a tive entre meus braços,
a minha alma não se contenta por havê-la perdido.
Embora seja a última dor que ela me causa,
e estes sejam os últimos versos que lhe escrevo.