terça-feira, 10 de novembro de 2009

Primaveras

Hoje completos 19 primaveras. Nem sempre floridas. Nem sempre tempestuosas. Sempre passageiras.

Completo 19 anos de existência, mais um dia perto da "indesejada da gente", como diria o sábio Manuel Bandeira. São pequeninos 19 anos diante da eternidade. 19 anos de desventuras em série, de aventuras esplendorosas. 19 anos de emoções diversas, de coleções de histórias para contar pelos ventos. Possuo bagagens para carregar pela vida a fora. Algumas, mais pesadas do que acho que consigo carregar. Mas carrego assim mesmo, para não deixar nada pra trás. Outras bagagens são leves como pluma, feitas do material impalpável dos sonhos escondidos em minhas gavetas trancadas. Indecifráveis.

Essas 19 primaveras não poderiam ser 19 primaveras sem a presença quase mágica das flores ao meu redor, emprestando um pouco de seu brilho ao todo, fazendo com que cada dia ensolarado valha a pena. Lembrando-me que os invernos tenebrosos sempre irão passar. Essas mesmas 19 primaveras não poderiam ser chamadas 19 primaveras sem a presença indesejável das ervas daninhas que também insistem em povoar meu jardim, fazendo com que eu nunca me esqueça de que também é preciso ser infeliz. Mas só um pouco.

Completo mais essa primavera, como sempre, incerta. Não possuo a vaga idéia de que estrada tomar. Sigo por alguns caminhos desconhecidos e tortos, a terra seca, prontos para serem semeados. E semeio vento, sonho. Algumas vezes, pesadelos. Poucas vezes. Vez ou outra tomo um atalho, noutras vezes, quero o caminho mais longo. Há dias em que teimo em voltar alguns passos para ver o que deixei para trás (a saudade convence-me com suas lamentações). Volto, olho, choro ou sorrio, continuo o passo. Em outros dias, sigo adiante rumo ao horizonte sem nem sequer olhar para trás. Nesses dias sou mais contente.

Vou indo, tocando em frente com esse corpo e alma mutáveis, tal como a lua. O corpo franzino e frágil de algumas estações, a alma idosa e dura de longos invernos.

Sigo com meus versos vãos e notas descompassadas. Mas não me importo. Amo o descompasso, o grito, a ausência de respostas, a falta de regras que me ensinem como seguir. Mas sigo. Teimosamente, eu sigo. Errando o andamento, assassinando a gramática.

Parto a cada novo amanhecer. Sou nova flor a cada instante, tentando podar meus excessos, ocupar minhas ausências excruciantes. Hora consigo, hora não. Paciência? Sobra-me e falta-me. Assim mesmo, na metade.

Parto sim, com a certeza de que meus botões coloridos um dia irão secar, que suas folhas secas desprender-se-ão dos galhos verdes, voando para um outro e longe lugar. O jardim seguirá seu curso, outras flores irão chegar, outras primaveras...Outro curso. Mas minhas lembranças de flores - tão lindas, tão raras! - hão de para sempre ficar.




4º Motivo da rosa

(Cecília Meireles)


Não te aflijas com a pétala que voa:
também é ser, deixar de ser assim.
Rosas verá, só de cinzas franzida,
mortas, intactas pelo teu jardim.


Eu deixo aroma até nos meus espinhos
ao longe, o vento vai falando de mim.
E por perder-me é que vão me lembrando,
por desfolhar-me é que não tenho fim.

6 comentários:

Laís de Ponte disse...

Ô, querida Yasmim!!! Meus parabéns!!!!!!!
Que você tenha muito mais primaveras a serem vividas...=)
Esse seu texto ficou muito bom e excelente para uma reflexão. Fez-me parar para analisar sobre a vida. Parabéns por seu talento na escrita e mais parabéns ainda por seu aniversário!!
=)
Abração!!!!!!!!!!!!
Felicidades!!

Yasmin Lara disse...

Obrigada, Laís!

abração!!
=)

Luiza de fato! disse...

Yasmin,
Parabéns, qua mais e mais flores habitem em seu caminho.
Te desejo mais flores, de todas espécies e cores.
Te desejo uma vida doce como um suspiro.
E desejo (desejo egoísta, na verdade) que você continue escrevendo, encantando e despertando em nós sentimentos tão bons; que é o que você faz.
E o fardo, pesado o quanto for, você consegue levar, sem dúvida; nós, escorpianas somos dotadas de uma força ímpar, creia.

Beijo.

E ahhh, morri quando cheguei aqui e vi que você postou "O quarto motivo da rosa"; às vezes eu ouso a dizer que é minha poesia favorita; é tão perfeita, e o engraçado, eu tinha postado essa semana também! Coincidência? rs

=*

Yasmin Lara disse...

Oi, Luiza!

Obrigada!
Também amo o 4º Motivo da rosa, uma das minhas favoritas tbm. Adoro Cecília!
Sempre Cecília...

beijinhos
=*

Varnion, o lobo solitário disse...

É bom ver que insistência funciona. Eu que insisti tanto pra você nos mostrar os seus olhos versos que não apenas de poesia.
Adoro ver que você faz poesia mesmo em prosa e encanta de toda forma.
Parabéns.

Yasmin Lara disse...

Obrigada, Bruno!
Que bom que gostou.

Abraços
adoro você.

=*