quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Linhas nostálgicas

Imagine uma menina pequena, olhando para uma árvore singela, abarrotada de pequenas bolas pretas. Saborosas!

-Não vou conseguir. É muito alto! - Diz essa menininha loira, amedrontada com o tronco magrelo e descascado. Frágil. Alto. Muito alto.

-Deixe de ser covarde, garota! É muito fácil! Você põe o pé aqui, o outro ali, e já está aqui em cima. - Responde o primo, com a boca cheia de frutinhas. Os outros garotos, também já trepados nos finos troncos das árvores, enchem suas bocas com as tais frutinhas.

Lá embaixo, ao lado da menininhha loira, uma bacia fica cada vez mais cheia de bolotinhas miúdas, ansiosas para serem futuramente devoradas por bocas impacientes. Eu disse devoradas? Não, senhor! Aquelas que sua imaginação cria ali embaixo são frutinhas intocáveis. Proibidas. Têm o nome da vovó em cada uma de suas curvas. Estão destinadas àquela geléia maravilhosa feita em casa, no tacho velho. Daquelas bem vermelhas, para serem degustadas com biscoitinhos, com café preto e forte e com as conversas açucaradas de fim de tarde ao lado do fogão à lenha. Cheiro de fumaça ao fundo. Fim de tarde chegando. Sol indo dormir, escondendo-se atrás das montanhas.

Pinte um pequeno quadro em sua cabeça mais ou menos assim: alguns garotos sapecas, uma garotinha loira, uma senhora gordinha mechendo o tacho velho no fogão, e elgumas tias preocupadas olhando pela janela o movimento nas árvores do lado de fora.

- Parem de fazer vontade na prima, meninos! Dêem logo jabuticaba pra ela!- Diz uma delas.
-Ah, ela é muito fresca! Se quer comer, tem que subir! - Responde um garoto loiro e magricela para a tia, olhando com cara feia para a menina lá embaixo.
-Não senhor! Ela é muito novinha. Dêem algumas para ela ou desçam todos daí! - Resignados, os primos endiabrados jogaram dezenas de bolinhas no chão.
-Quer? Então pegue!

Nunca duvide da gula de uma criança...

Agora leitor, procure sentir aquele cheirinho conhecido de café feito na hora. Imagine uma coleção de canequinhas brancas desbotadas pelo tempo sendo colocadas com carinho sobre a mesa de oito lugares da sala de jantar. Imagine aquelas bolotinhas pretas fazendo ploc ploc enquanto se estouram em bocas dementes, deixando escorrer aquele caldinho doce pelas bochechas rosadas de algumas crianças. Elas nem ligam pra isso.

O fogão a lenha está aceso e dentro da casinha branca você sente o cheiro da fumaça que entra pelas janelas abertas. Sente-se na cadeira antiga da mesa e sirva-se à vontade. A vovó gosta de visitas, e se você permitir, irá lhe contar algumas histórias das mais curiosas. Histórias de tempos antigos, histórias de sua infância. Boas histórias para te ninar. Ou para te assustar.

Se você resolver ficar para dormir, poderá ver as estrelas e a lua como se estivessem bem mais perto que de costume. Brilhantes. Convidativas. Dormirá com o cheiro de terra e o barulhinho suave dos ventos nas árvores. O vento nas jabuticabeiras do pomar. Você gostará de dormir, leitor. Quando acordar, descerá as escadas e encontrará a mesa pronta. Queijo. O café, que não pode faltar. A geléia que a vovó fez com as jabuticabas que os meninos levados panharam do pé. Você provará dessas bolinhas pretas, tenho certeza. E vai querer mais. E mais. E mais. Você ouvirá mais histórias. Irá ver as crianças correndo pela casa a fora, pelo quintal gigante. Vá brincar com eles!

Quando for embora, sentirá saudades, tenho certeza. Eu senti. Ainda sinto. Todos os dias, sempre que provo o sabor da minha adorada bolinha preta. Nenhuma tem o mesmo gosto daquela época em que eu tinha medo de subir nas árvores para me fartar. Nenhuma geléia é tão doce quanto àquela que a vovó fazia, mas que não podia ser devorada antes do almoço ou do jantar. Eu sinto saudades, leitor. Você também sentirá quando deixar pra lá as linhas nostálgicas desse texto. Não há como não se encantar com o gosto único e inimitável das tardes na casa da avó, com as traquinagens com os primos. Com as saudades que sentimos de tudo isso. Quando largar esse texto, procure algo no fundo das suas memórias mais lindas. Acredito que você também tenha uma história gostosa pra contar. Compartilhe comigo nessa mesa de café da tarde. O sol descansa nas montanhas. Quero ouvir suas palavras enquanto tomamos café. E devoramos pequenas jabuticabas.

10 comentários:

laura_fonseca66 disse...

Own , muito fofo ! *-*
Muito lindo como você consegue transformar os fatos do seu passado em reflexões que afetam também o nosso . A-MEI mesmo ! BY : CHAN

Yasmin Lara disse...

Que bom que vc gostou, Chan. Mas não se exclua. Que história é essa de SEU passado? Pelo que me consta, querida irmã, a srta já comeu muita geléia de jabuticaba també, rs.

beijinhos
=)

fElIp£ disse...

Lindo, adorei, e por sinal, ja aprontei mil e umas com meus primos em pes de jabuticabas, roça, fogao a lenha e todos esse ingredientes da sua história, so que eu nao conseguiria tece-las dessa forma tao incrivel como vc tc as suas, parabens!

Bjx

Yasmin Lara disse...

Pois é Lipe, típicas coisas de mineiro na roça, hehehehe.

Que bom que vc aprontou também. A melhor parte da infância são as traquinagens!!

Obrigada pelo comentário
Beijinhos
=*

Márcio Vandré disse...

Aqui, ao contrário de jabuticabas, escalavamos árvores para pegar "Jambos".
A infância é como o mel dessas frutas, que fica um tempo na boca, mas vai embora junto com a saliva.

Um belo texto, Yasmin!
Uma das escritoras prediletas que eu tenho! :)
Um beijo!

Yasmin Lara disse...

Aí está uma coisa que eu gostaria de provar, Marcinho..."Jambos", rs.

Concordo com você, a infância é breve como o doce sabor das frutas. Mas digo mais, ela pode até ir embora com a saliva, mas essas lembranças adocicadas ficam para sempre dentro da gente, tatuadas.

beijos beijos beijos
obrigada pelo comentário
=)

Laís de Ponte disse...

Oi Yasmim! =)
Adoro textos nostálgicos! *--*
Esses dias mesmo escrevi um lá no meu blog. É tão gostoso colocar em palavras as coisas sentidas em outras épocas! É bom transmitir às pessoas essas recordações! =)

E, se tem algo que deixa nostalgia e saudade, é a infância!

Beijão!

Yasmin Lara disse...

Oi moça!
Concordo com você, a infância é um afase extremamente nostálgica da nossa vida.

Obrigada pelo comentário
abraços
=)

Varnion, o lobo solitário disse...

Essa nostalgia eu acho que só casa do vó tem. Esse é o tipo de recordação pra te animar naquele dia que vc está pra baixo e pra te lembrar que na verdade não precisa muito pra vida ser boa, só café, biscoitos e conversa ao lado da lareira....

Yasmin Lara disse...

As lembranças são as melhores coisas que a gente pode carregar da nossa infância!

Obrigada pelo comentário, moço.
abraços
=)