sábado, 24 de outubro de 2009

Diálogo de Tempo e Vento

Adormeço e ele chega, saboroso, esperto, curioso; batendo na porta do meu sonho, e eu, desavisada, abro. Abro porta e alma. Fico calada, ele sorri, zombando, em silêncio, de minha surpresa. Peço que ele entre, mas ele já está do lado de dentro, esparramado em meus sofás, íntimo, como um velho conhecido. Ele sempre estivera ali, ainda que eu não percebesse.

Pergunto-lhe sobre as minhas angústias, ele limita-se a me olhar, despindo toda a minha alma. E sorri. De novo.

Zango-me pelo amor perdido. Ele nem se move. Pergunto-lhe por que me aprisiona, ele diz que me liberta a cada instante. Discorro sobre a dor, ele se diz o herói do esquecimento. Eu, revoltada, o acuso de me levar ao sofrimento.

Ele gaba-se do poder, eu o acuso de me invejar. Pois por mais que ele queira permanecer por um tempo, sua natureza é de sempre passar.

E mostro fotos coloridas, lembranças, paisagens. Ele ri, dizendo que é ele quem leva tudo embora, para longe de meus abraços.

Eu choro. Ele ri novamente, sussurrando em meu ouvido que ele se completa, e que eu preciso de outro para me encontrar. Respondo que me importa mais é ter alguém para recordar.

E ficamos discutindo...Como sempre!
Ele se despede, mas eu sei que vai voltar, pois dele eu me esqueço, mas sou muito presente para ele possa me apagar.

Já na porta da saída, pergunto-lhe sobre sua amiga, quando irá me buscar. Ele diz-me que da morte, nem ele, o Tempo, saberá.
Abraça-me forte, como pena de minha vida frágil. Eu suspiro. Resigno-me. Dou um meio sorriso, escondo meu medo de não mais ser. Ele se vai, confuso, perdido. No fundo, ele queria não durar...



...Trilha sonora inspiradora: "Resposta ao Tempo"- Nana Caymmi (uma das letras de música mais lindas na minha opinião)...

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Versos Oníricos

É fantasia,
é céu,
é mar.
São devaneios do luar.
É conto,
é som,
saudade
e tom,
A linda arte de sonhar.
Sei que algo em mim avoa
e eu também quero voar.

Indo, indo... pra bem longe...
até o horizonte me abraçar.

domingo, 18 de outubro de 2009

Infância

Penso como eterna criança,
pois não aprendi, por exemplo,
a não ter medo de escuro.
Nunca me ensinaram a arte da solidão.
Penso como criança,
pois sonho alto.
Voando.
Temendo.
Continuando...
Penso como uma criança,
simplesmente porque sei
que quanto mais nos aproximamos da maturidade,
mais difícil torna-se a visão da verdade.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Linhas nostálgicas

Imagine uma menina pequena, olhando para uma árvore singela, abarrotada de pequenas bolas pretas. Saborosas!

-Não vou conseguir. É muito alto! - Diz essa menininha loira, amedrontada com o tronco magrelo e descascado. Frágil. Alto. Muito alto.

-Deixe de ser covarde, garota! É muito fácil! Você põe o pé aqui, o outro ali, e já está aqui em cima. - Responde o primo, com a boca cheia de frutinhas. Os outros garotos, também já trepados nos finos troncos das árvores, enchem suas bocas com as tais frutinhas.

Lá embaixo, ao lado da menininhha loira, uma bacia fica cada vez mais cheia de bolotinhas miúdas, ansiosas para serem futuramente devoradas por bocas impacientes. Eu disse devoradas? Não, senhor! Aquelas que sua imaginação cria ali embaixo são frutinhas intocáveis. Proibidas. Têm o nome da vovó em cada uma de suas curvas. Estão destinadas àquela geléia maravilhosa feita em casa, no tacho velho. Daquelas bem vermelhas, para serem degustadas com biscoitinhos, com café preto e forte e com as conversas açucaradas de fim de tarde ao lado do fogão à lenha. Cheiro de fumaça ao fundo. Fim de tarde chegando. Sol indo dormir, escondendo-se atrás das montanhas.

Pinte um pequeno quadro em sua cabeça mais ou menos assim: alguns garotos sapecas, uma garotinha loira, uma senhora gordinha mechendo o tacho velho no fogão, e elgumas tias preocupadas olhando pela janela o movimento nas árvores do lado de fora.

- Parem de fazer vontade na prima, meninos! Dêem logo jabuticaba pra ela!- Diz uma delas.
-Ah, ela é muito fresca! Se quer comer, tem que subir! - Responde um garoto loiro e magricela para a tia, olhando com cara feia para a menina lá embaixo.
-Não senhor! Ela é muito novinha. Dêem algumas para ela ou desçam todos daí! - Resignados, os primos endiabrados jogaram dezenas de bolinhas no chão.
-Quer? Então pegue!

Nunca duvide da gula de uma criança...

Agora leitor, procure sentir aquele cheirinho conhecido de café feito na hora. Imagine uma coleção de canequinhas brancas desbotadas pelo tempo sendo colocadas com carinho sobre a mesa de oito lugares da sala de jantar. Imagine aquelas bolotinhas pretas fazendo ploc ploc enquanto se estouram em bocas dementes, deixando escorrer aquele caldinho doce pelas bochechas rosadas de algumas crianças. Elas nem ligam pra isso.

O fogão a lenha está aceso e dentro da casinha branca você sente o cheiro da fumaça que entra pelas janelas abertas. Sente-se na cadeira antiga da mesa e sirva-se à vontade. A vovó gosta de visitas, e se você permitir, irá lhe contar algumas histórias das mais curiosas. Histórias de tempos antigos, histórias de sua infância. Boas histórias para te ninar. Ou para te assustar.

Se você resolver ficar para dormir, poderá ver as estrelas e a lua como se estivessem bem mais perto que de costume. Brilhantes. Convidativas. Dormirá com o cheiro de terra e o barulhinho suave dos ventos nas árvores. O vento nas jabuticabeiras do pomar. Você gostará de dormir, leitor. Quando acordar, descerá as escadas e encontrará a mesa pronta. Queijo. O café, que não pode faltar. A geléia que a vovó fez com as jabuticabas que os meninos levados panharam do pé. Você provará dessas bolinhas pretas, tenho certeza. E vai querer mais. E mais. E mais. Você ouvirá mais histórias. Irá ver as crianças correndo pela casa a fora, pelo quintal gigante. Vá brincar com eles!

Quando for embora, sentirá saudades, tenho certeza. Eu senti. Ainda sinto. Todos os dias, sempre que provo o sabor da minha adorada bolinha preta. Nenhuma tem o mesmo gosto daquela época em que eu tinha medo de subir nas árvores para me fartar. Nenhuma geléia é tão doce quanto àquela que a vovó fazia, mas que não podia ser devorada antes do almoço ou do jantar. Eu sinto saudades, leitor. Você também sentirá quando deixar pra lá as linhas nostálgicas desse texto. Não há como não se encantar com o gosto único e inimitável das tardes na casa da avó, com as traquinagens com os primos. Com as saudades que sentimos de tudo isso. Quando largar esse texto, procure algo no fundo das suas memórias mais lindas. Acredito que você também tenha uma história gostosa pra contar. Compartilhe comigo nessa mesa de café da tarde. O sol descansa nas montanhas. Quero ouvir suas palavras enquanto tomamos café. E devoramos pequenas jabuticabas.

sábado, 10 de outubro de 2009

Dueto

....Márcio Vandré e Yasmin Lara...


Lá no horizonte surge um sol
brilhante, como jóias raras.
Sua luz incessante clareia o dia.
perfeito, como uma sinfonia.
De longe vêm os pássaros com a cantoria,
suas notas alegres fazendo-me companhia,
Desvanecem qualquer monotonia.
Ah, caro sol, deixe-me em ti me acolher!
Completar o quebra-cabeça que é viver.
Se me abandonas assim, em sombras,
fico na corda bamba, perdido no escuro do meu ser.
Quero mais é essa claridade infinita!
Absoluta, como a sensação da música que finda.
Quero essa felicidade constante
Chega de sorrisos por instantes.
Ah, caro sol, quero brilhar!
Para sempre, até essa minha louca vida terminar!
Não quero esperar o inverno chegar..


...uma pequena experiência extremamente prazerosa entre duas pessoas apaixonadas pela arte de ser com palavras. Bendito aquele que inventou o MSN, rs...

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Assim...

Assim é o amor:
...
Assim é a dor:
...
Assim é o acaso:
...
Assim, desamor:
...


Assim é a vida, assim é a palavra
seguindo viagem sem definição.
Três pontos eternos,
três vagas lembranças.
Essas reticências no meu coração.

domingo, 4 de outubro de 2009

Poeminha Desconexo

É começo?
Fim.
É o fim?
Refaço!

Entendeu alguma coisa?
Ah...é só descompasso.


...estou postando esse poema só e unicamente como protesto! Entendam que ele está incrivelmente incompleto. Mas já sentiu o sabor da completude. A história? Bem...escrevi um poeminha cuja métrica e palavras ficaram, em suma, perfeitas! Perfeitas de acordo com o que eu me propus a escrever. Uma daquelas idéias que surgem, brilhantes de dentro de nossas cabecinhas cheias de hiatos. Quando fui copiar do bloco de notas para o blog, perdi todas as minhas palavras num único e breve clique. Apenas um. Senti-me como se perdese uma pequenina parte de mim (o que não deixa de ser verdade, visto que minhas palavras são como realmente pedacinhos meus). Imagine você o sentimento de Michelangelo se ele derramasse tinta preta sobre sua recém pintada Capela Sistina e você terá uma vaga idéia do que passou-me pela cabeça. O mais incrivelmente irônico, foram esses quase malditos últimos versos sobre refazer algo perdido. Posso estar desenvolvendo um caso de paranóia, mas meu próprio poema está rindo da minha cara com esses versos finais. Nada mais a declarar além dessa minha imensa ira por mim mesma. Coitadinhas das minhas palavrinhas! Tão bonitinhas ali, bem escritas. Com vida! Agora apagadas, mortas, cinzas, nada...

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Soneto para a Ausência

Não estou preparada pra essa tua ausência,amor,
que em meio a esse meu mundo dormente
teima em fazer-se onipresente
roubando de minhas tintas, a cor.

Não estou preparada pra essa tua inexistência,
pra essa tua falta que insiste em fazer-me morrer.
Não quero mais essa alegria de aparência
que não pode, nem me deixa te esquecer.

Quero-te mais é aqui, sempre presente!
Completando meu corpo com o seu ardor.
Que nunca mais pense em fazer-te asusente

Pois essa solidão deixa-me impaciente,
esse vazio de ti torna-me demente,
sem você sou só o que remete a dor.

...apenas uma pequena experiência com sonetos...





Imagem: http://br.olhares.com/ausencia_foto848525.html
Artista: u m b r i a