quinta-feira, 14 de maio de 2009

Todo mundo merece ler Quintana...

Nos salões do sonho

Mas vocês não repararam, não?!
Nos salões do sonho nunca há espelhos...
Por quê?
Será porque somos tão nós mesmos
Que dispensamos o vão testemunho dos reflexos?
Ou, então
- e aqui começa um arrepio -
Seremos acaso tão outros?
Tão outros mesmos que não suportaríamos a visão daquilo,
Daquela coisa que nos estivesse olhando fixamente do outro lado,
Se espelhos houvesse!
Ninguém pode saber... Só o diria
Mas nada diz,
Por motivos que só ele conhece,
O misterioso Cenarista dos Sonhos!


- Mario Quintana; Velório sem defunto, 1990 -


Resolvi colocar um poema de Mário Quintana por aqui, simplesmente porque não consigo imaginar um ser humano que não mereça ter contato com as palavras dele. Muito mais que palavras até: mágica!

Quintana escrevia com aquelas palavras que acariciam devagarinho antes de dormir. E a gente dorme. E sonha. São aquelas palavrinhas mágicas que dizem mais do que o que a gente quer dizer, elas são tanto da gente, que deveríamos poder tomá-las para nós, tatuando-as na pele para nunca mais irem embora.

Eu me apaixonei por esse poema. Achei-o extremamente curioso. Entendi dele, que temos tanto medo de olhar no fundo de nós mesmos, que evitamos olhar pelo espelho. Talvez sejamos outros, que nem conhecemos, talvez sejamos menos do que queremos ver, talvez tal como gostaríamos. Mas temos medo. Não olhamos. O elemento surpresa não nos atrai, preferimos a covardia. E vamos assim...sem saber ao certo o que há do outro lado, no reflexo.

2 comentários:

Varnion, o lobo solitário disse...

Nossos poetas sabem bem como se expressar bem em poucas e simples palavras. Gostei do poema.

Concordo com você na análise.

Luiza de fato! disse...

Amei o post.
Realmente, Quintana escolhe as palavras certas, que nos tocam a alma. E nesse poema ainda nos convida a uma reflexão interessante.
Beijins.