terça-feira, 26 de maio de 2009

Lembranças mínimas

Ainda lembro-me do cheiro adocicado de minha avó, que vinha da cozinha cor de caramelo nos fundos da casa, e embalava-me. Lembro-me do cheiro de bolo no forno, de feijão cozido e de expectativa (pois até as minhas expectativas tinham um cheiro,ou um sabor quase palatável em minha língua).

Lembro-me, com uma quase mágica exatidão, dos fins de tarde na casa pequena, na rua mínima e calma onde moravam os meus avós. E desenho na lembrança a grande porta de correr, que levava ao jardim. Engraçado...aquele jardim, tão pequeno, tão simples, tão puro; já foi em minha imaginação imenso, grande, infindo. E o papagaio tagarelava, e os adultos conversavam, e eu pequena em maio ao grande, ia...perdendo-me pelos cantos da casa, pelos cantos das conversas, pelas barras das saias.

Ainda ouço a música que saía de um violão, de um saxofone, as cantorias de Natal e ano novo. E sinto saudades. Quase morro. Mas sinto mesmo assim, mesmo sem saber ou querer, pois isso me embala nos dias sem som, nos dias mais ruíns.

Minha lembrança, como uma caixa, guarda a sete chaves as memórias mínimas e singelas de minha meninice. Guarda por exemplo, os abraços mais fortes de minha avó rechonchuda, o sabor da comida especial de domingo, as histórias de terror de minha tia, as travessuras de meus primos sapecas, o carinho excepcional de minha mãe. Mas cresci. Sem sentir. Mesmo assim, de teimosa, continuo a guardar. Somente através dessas lembranças já passadas - nunca olvidadas -, é que eu lembro-me de onde vim, como comecei, como amei. Somente através do meu relicário de memórias - tão sagrado, tão bem escondido no peito - é que consigo seguir em frente, sem a tristeza de não ter vivido, sem amarguras. Somente com uma saudade apertada de quem já se foi, do já passou, do que já provei. Mas sei, com a certeza que me foi dada pelo passar dos anos, que só de guardar em mim as coisas mais simples, é que vou amando, partindo sonhando. Despedindo-me. Sempre dizendo a mim mesma como fui feliz, e como ainda hei de ser, seguindo os exemplos aprendidos, pois a vida, ainda que passageira, vale a pena para aqueles que amam. Para aqueles que sonham.






... principalmente para a minha avó, dona Mercês, de quem eu sinto saudades imensas, e quem eu guardo(junto com as mais gostosas lembranças da minha infância) no fundo do meu relicário de memórias. Jamais me esquecerei daqueles tempos tão maravilhosos...

"Oh! que saudades que tenho
Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais!" (Casimiro de Abreu


Imagem: http://br.olhares.com/memorias_foto1265143.html
Galeria do Artista César Ribeiro

2 comentários:

Luiza de fato! disse...

"A saudade
é prego, parafuso
quanto mais aperta
tanto mais difícil arrancar
a saudade
é um filme sem cor
que o meu quer ver colorido"
Um salve pro Zeca.

Essas lembranças são mágicas.
Em algumas manhãs, sou capaz de sentir o gosto e o cheiro do café com leite que alimentou todas as manhãs da minha infância.
É uma saudade que dói uma dor gostosa...

Beijo moça.

Varnion, o lobo solitário disse...

Lembrar os bons tempos já passados dá novas energias pra seguir em frente.

Muito bom