domingo, 31 de maio de 2009

Emalem essas saudades

Emalem essas saudades!
Quero mais é vê-las partir sem despedida,
passando pelo meu portão sem olhar para trás.
Batendo as portas com pressa. Com raiva.
Para não retornar jamais.
Deixem que sequem na memória essas gotas de chuva,
essas memórias cinzas,
essas horas castigadas.
Já não quero mais presente essas faltas
que em meu peito jazem infindas e enraizadas.
Quero esquecer-me desses novos passos,
dessa nova dança que aprendemos sozinhos.
Separados.
Quero que tudo se perca pelo tempo a fora,
expulsando de minha vida esse pulsar vazio que é o recordar.
Quero que emalem-se essas ausências,
pois o muito é demais, e já são muitas saudades
do que sei que não terei novamente jamais.



..Geralmente, eu penso, escrevo, aí escolho a imagem. Esse poema foi o oposto. Estava eu, zanzando pelo site olhares. com, quando me deparo com essa foto. O título dela foi o que mais me chamou a atenção, e me inspirou, rs. "Emalam-se as saudades", isso é lindo !!...

Imagem: http://br.olhares.com/emalam-se_as_saudades_foto2544729.html
Galeria da Artista: Maria São Miguel
Trilha sonora inspiradora: Janta (Marcelo Camelo)

terça-feira, 26 de maio de 2009

Lembranças mínimas

Ainda lembro-me do cheiro adocicado de minha avó, que vinha da cozinha cor de caramelo nos fundos da casa, e embalava-me. Lembro-me do cheiro de bolo no forno, de feijão cozido e de expectativa (pois até as minhas expectativas tinham um cheiro,ou um sabor quase palatável em minha língua).

Lembro-me, com uma quase mágica exatidão, dos fins de tarde na casa pequena, na rua mínima e calma onde moravam os meus avós. E desenho na lembrança a grande porta de correr, que levava ao jardim. Engraçado...aquele jardim, tão pequeno, tão simples, tão puro; já foi em minha imaginação imenso, grande, infindo. E o papagaio tagarelava, e os adultos conversavam, e eu pequena em maio ao grande, ia...perdendo-me pelos cantos da casa, pelos cantos das conversas, pelas barras das saias.

Ainda ouço a música que saía de um violão, de um saxofone, as cantorias de Natal e ano novo. E sinto saudades. Quase morro. Mas sinto mesmo assim, mesmo sem saber ou querer, pois isso me embala nos dias sem som, nos dias mais ruíns.

Minha lembrança, como uma caixa, guarda a sete chaves as memórias mínimas e singelas de minha meninice. Guarda por exemplo, os abraços mais fortes de minha avó rechonchuda, o sabor da comida especial de domingo, as histórias de terror de minha tia, as travessuras de meus primos sapecas, o carinho excepcional de minha mãe. Mas cresci. Sem sentir. Mesmo assim, de teimosa, continuo a guardar. Somente através dessas lembranças já passadas - nunca olvidadas -, é que eu lembro-me de onde vim, como comecei, como amei. Somente através do meu relicário de memórias - tão sagrado, tão bem escondido no peito - é que consigo seguir em frente, sem a tristeza de não ter vivido, sem amarguras. Somente com uma saudade apertada de quem já se foi, do já passou, do que já provei. Mas sei, com a certeza que me foi dada pelo passar dos anos, que só de guardar em mim as coisas mais simples, é que vou amando, partindo sonhando. Despedindo-me. Sempre dizendo a mim mesma como fui feliz, e como ainda hei de ser, seguindo os exemplos aprendidos, pois a vida, ainda que passageira, vale a pena para aqueles que amam. Para aqueles que sonham.






... principalmente para a minha avó, dona Mercês, de quem eu sinto saudades imensas, e quem eu guardo(junto com as mais gostosas lembranças da minha infância) no fundo do meu relicário de memórias. Jamais me esquecerei daqueles tempos tão maravilhosos...

"Oh! que saudades que tenho
Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais!" (Casimiro de Abreu


Imagem: http://br.olhares.com/memorias_foto1265143.html
Galeria do Artista César Ribeiro

sexta-feira, 22 de maio de 2009

Como o tempo arrastou meus dias



Quando dei por mim, já era tarde, quase noite (ou seria quase dia?). Já sentia-me velha e sem vida. Algumas rugas imaginárias tomavam conta do meu rosto e eu via, em vez de loiros, brancos os fios do meu cabelo. Até pensei que tivesse passado dois dias, dois anos, dois séculos. Mas foram apenas as horas que quiseram teimar e correr. Indo...

Quando vi-me sentada, quieta, calada, eram tantos os grandes problemas, que eu sentia pesarem em minhas costas mil quilos de dúvidas e incertezas. Quilos e mais quilos de infelicidade. E eu carregava tudo, deixando minha alma mais suja, mais corcunda, mais cinza.

As flores do jardim pareciam não mais existir, embora ainda fosse a mesma primavera, o mesmo céu, e o jardim ainda estivesse no mesmo lugar. Eu quem não estava, embora ainda fosse fisicamente moça e estivesse ali, parada. Parecia contar mil anos, ou parecia nem saber mais contar. Ou talvez, não quisesse mais saber de contar.

O tempo arrastou meus dias devagar, sem aviso, sem pesar. Arrastou a cada dia de decepções, a cada dia de incalculáveis saudades, de infinitos amores, de escolhas obrigadas, de manhãs insanas, de noites de insônia. Ele arrastou-me com ele sem dó, simplesmente por ter que passar. Eu fui levando, deixando-me guiar no escuro, levando de leve...Simplesmente por levar, assim como o rio leva para longe as suas águas. A diferença é que o rio sabe aonde vai desaguar, eu, ainda estou deixando-me pelo tempo arrastar.


Imagem: http://br.olhares.com/partiste_hoje_foto886342.html
Galeria da artista Carla Salgueiro

*Agradecimento mais que especial ao meu amigo Bruno por seu último texto (www.varniontheblack.blogspot.com). Eu gostei tanto, que além de me inspirar a escrever esse, me deixou pensando por dias. (Acho que me sinto tão curiosamente velha quanto você moço, rs)

domingo, 17 de maio de 2009

Quando o amor ama sozinho

Quando o amor ama sozinho,
busca em salas vazias, nos quartos escuros
algo que o complete, para inventar.
E buscando, se perde, adoece,
sem saber que o imaginado não pode se concretizar.

Quando o amor ama sozinho,
teima em pintar telas de cores vazias,
dizendo o que quer ver, o que sente.
Mas na verdade, o amor sabe
que tudo aquilo pincelado, é parte de si mesmo, que mente!

Quando o amor ama sozinho,
sobra vagas e hiatos no coração.
E palpita...
Batendo incansavelmente sem parar.
Mas o amor, amando sozinho,
sabe que esse é um sentimento egoísta
prestes a definhar.


...Realmente, devia estar sentindo falta das rimas. Sinceramente, não foi o meu melhor poema dos últimos tempos, mas como foi escrito, acho que merece ser postado...




Imagem: http://br.olhares.com/sozinho_foto630434.html
Artista: Joao Barbosa
Poema (?): Yasmin Lara

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Todo mundo merece ler Quintana...

Nos salões do sonho

Mas vocês não repararam, não?!
Nos salões do sonho nunca há espelhos...
Por quê?
Será porque somos tão nós mesmos
Que dispensamos o vão testemunho dos reflexos?
Ou, então
- e aqui começa um arrepio -
Seremos acaso tão outros?
Tão outros mesmos que não suportaríamos a visão daquilo,
Daquela coisa que nos estivesse olhando fixamente do outro lado,
Se espelhos houvesse!
Ninguém pode saber... Só o diria
Mas nada diz,
Por motivos que só ele conhece,
O misterioso Cenarista dos Sonhos!


- Mario Quintana; Velório sem defunto, 1990 -


Resolvi colocar um poema de Mário Quintana por aqui, simplesmente porque não consigo imaginar um ser humano que não mereça ter contato com as palavras dele. Muito mais que palavras até: mágica!

Quintana escrevia com aquelas palavras que acariciam devagarinho antes de dormir. E a gente dorme. E sonha. São aquelas palavrinhas mágicas que dizem mais do que o que a gente quer dizer, elas são tanto da gente, que deveríamos poder tomá-las para nós, tatuando-as na pele para nunca mais irem embora.

Eu me apaixonei por esse poema. Achei-o extremamente curioso. Entendi dele, que temos tanto medo de olhar no fundo de nós mesmos, que evitamos olhar pelo espelho. Talvez sejamos outros, que nem conhecemos, talvez sejamos menos do que queremos ver, talvez tal como gostaríamos. Mas temos medo. Não olhamos. O elemento surpresa não nos atrai, preferimos a covardia. E vamos assim...sem saber ao certo o que há do outro lado, no reflexo.

terça-feira, 12 de maio de 2009

Se...


Se você viesse,
vestiria meu melhor vestido,
aquele, em pé no armário, bordado de flores
já desbotado de tanto esperar.
Mas vestiria mesmo assim,
para que seus olhos pudessem me admirar.
E me pentearia calmamente,
despedindo-me devagar da saudade, sem pressa alguma de fazê-la voltar.
Se você viesse, se você chegasse,
eu aprontaria meu mais belo sorriso,
e te esperaria sentada em nossa casa
cheia de lembranças para lhe narrar.
Lembranças de dias cinzas, de segundos monótonos,
das horas em que não estavas comigo para me ajudar a contar.
E te presentearia com meus olhos de vidro,
tão cansados de chorar.
Isso tudo, se você viesse,se você chegasse...
para que eu, enfim, pare de te inventar.


...porque eu já sentia falta de rimar...não são assim, as melhores rimas que existem, mas voilà...



Poema: Yasmin Lara
Imagem: http://br.olhares.com/e_romeu_nao_vem_foto1827294.html
Autor: Eduardo Gonçalves

segunda-feira, 11 de maio de 2009

Avisão...

Amo o que não vejo,
por perder-me nos cantos da imaginação.
E nessa divagação, passo a tecer sonhos,
a tecer mil palavras.
E falo baixo.
Me elevo tão alto!
Amo, sem precisar ver,
pois aprendi com a vida,
a devorar saborosamente o que sinto,
a tocar o que lembro,
a adorar o que crio,
a dormir no que sonho.

(28/03/2009 - 10/04/2009)



Esse poema mereceu ser postado, apenas por ser incrivelmente curioso. Ontem, estava eu, lendo meus antigos esboços, tudo numa rabiscação só. Eis, que no meio de tanta parafernalha encontro algumas linhas dele, inacabadas. Mudo uma palavra ali, outra aqui, e ele ganha um novo significado, bem na minha frente. Ganha também um novo nome, um tanto quanto alternativo...(é Avisão mesmo, juntinho...) E aí está ele, postado, inteiro. Isso explica as duas datas de criação.

Imagem: http://br.olhares.com/um_mundo_d_imaginacao_foto1693688.html
Artista: Raquel Hipólito
Poema : Yasmin Lara

O maior amor do mundo

O melhor amor do mundo, não é aquele que te pisca os olhos e te preenche por dois segundos depois foge, indo embora com as horas enquanto elas passam, cada vez para mais longe.

O maior amor, não é o que diz a toda hora que te ama, nem aquele que você espera que bata na sua porta para, enfim, te preencher, te completar. O amor maior não precisa chegar, não precisa te dividir, nem te oprimir, nem te obrigar. Ele sempre esteve ao nosso lado nos enchendo de carinho a cada novo sorriso, em meio à todas as nossas lágrimas. Ou simplesmente pelo prazer de nos fazer bem.

Esse amor, a gente percebe todos os dias no par de olhos que nos acorda, ou nos prepara ou café, ou que simplesmente nos dá bom dia. Um bom dia sincero. Ele não precisa estar a todo instante ao nosso lado para transmitir forças, pois já faz parte de nós, ou somos parte dele. É um amor que não precisa dividir-se com a obrigação de completar.

O amor maior, é dado de graça, sem condições, sem restrições. Ele não exige ser correspondido, exige apenas nossa mais completa felicidade. Esse amor não se quebra, não torna impuro, não conhece fim.

O amor completo, a gente sempre possuiu, desde o primeiro suspiro, e teremos até nosso último sopro de vida. Gostemos ou não. Mesmo em sua ausência física, esse amor tão grande sabe enviar uma mensagem boa, que como mágica, transborda nosso peito.

Temos o maior e melhor amor do mundo nos braços de nossas mães, ou então, abrigando a memória delas. Não percebemos, nem sempre valorizamos. Buscamos ao longe o que sempre possuímos. Mas o amor de mãe é tão puro e perfeito em si mesmo, que nem se importa, perdoa nossas falhas, nossas falhas, nossos caminhos errados. Sempre nos recebe de volta com um beijo de boas vindas, e quando diz adeus, chora sinceramente e nos presenteia com um pedaço de si. E nunca o pedirá de volta.

O amor de mãe é o maior amor do mundo.
É o amor mais eterno que a podemos conhecer.


Mãe...te amo!! Obrigada por tudo que eu sou, e pelo que você é!


Texto: Yasmin Lara
Imagem:http://br.olhares.com/rosa_foto1248546.html
Fotógrafo: Ana M. Bile

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Se eu fosse mais jovem...

Se eu fosse mais jovem, aprenderia a fazer as coisas direito. E faria.
Se eu fosse mais jovem, amaria muito. Sem arrependimentos. Sem talvez, porques, ou entretantos.
Talvez,se eu fosse jovem, eu tivesse usado mais saias curtas, mais roupas malucas.
Talvez, sentisse menos medo do futuro atrás da porta,
menos medo dos fantasmas do passado debaixo da cama.
Se eu fosse mais jovem, não carregaria tanto o peso da vida em minhas costas, para não causar futuras artrites.
Não enterraria meus sonhos no subsolo.
Não deixaria que passassem em branco as minhas estações,
nem que passassem com tanta seriedade as minhas frustrações.
Se eu fosse mais jovem, quebraria todos os meus relógios,
para não me lembrar segundo a segundo que o tempo estava a passar.
Aliás, daria as costas para o tempo de vez.
Se eu fosse jovem, não me preocuparia tanto com as rugas,
não me preocuparia tanto com todos,
nem tanto com tudo.
Se eu tivesse um dia mais jovem,
jogaria no lixo todas as minhas toneladas de indagações,
deixaria de lado as minhas depressões, as minhas falsas animações.
E correria mundo, me desfaria em cores,
me enlouqueceria, morreria a todo instante de amores.
Se eu fosse mais jovem, seria mais eu.
Se eu fosse mais jovem... Sempre mais jovem.
Ah, se eu fosse um segundo perdido no tempo mais jovem...




Texto: Yasmin Lara
Imagem: www.olhares.com
Galeria: Carla Salgueiro
http://br.olhares.com/havia_tempo_foto680671.html

domingo, 3 de maio de 2009

Perco-me

Perco-me porque sou pouca,
embora grande, vária e infinita.
Sempre mutável, como a lua.
Perco-me, pois o mundo é grande,
mas só enxergo sonhos mínimos.
Poucos.
Inalcansáveis.
Perco-me, por só ter aprendido a voar,
por não querer saber andar com os pés no chão.
Meu delírio é o dia-a-dia,
e faço da realidade minha mais inconfessável alucinação.
Perco-me por não ter caminhos, por não temer as viagens,
por não ter grandes saudades , nenhuma grande paixão.

Texto: Yasmin Lara

sexta-feira, 1 de maio de 2009

Um pouco de Drummond


JOSÉ

E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, Você?
Você que é sem nome,
que zomba dos outros,
Você que faz versos,
que ama, protesta?
e agora, José?

Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio,
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José?

E agora, José?
sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio, - e agora?

Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora?

Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse,
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse...
Mas você não morre,
você é duro, José!

Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja do galope,
você marcha, José!
José, para onde?

Carlos Drummond de Andrade


Porque esse é um dos poemas mais lindos e completos de Carlos Drummond de Andrade.
Merece uma postagem para ele, sem maiores comentários.