terça-feira, 28 de abril de 2009

O Trem

Espero uma novidade. E espero como quem espera um trem que nunca chega na estação. Cheia de expectativas!

E sentada num banco duro, olhando a paisagem se modificar pouco a pouco, aguardo boas novas. Boas notícias vindas de longe, por telefone ou por carta. Espero um abraço de saudades, um sorriso de bom dia. Espero que aponte, de novo, um novo dia. Mais um dia para olhar pela janela e simplesmente aguardar.


Fico na estação esperando o trem que trará o que eu sonho, ainda que eu não saiba ao certo o que é.Nunca me disseram o que buscar. E olho para os dois lados, mas está tudo vazio.O príncipe encantado não chega, a história que eu quero viver não vem, a graça louca para alegrar meus dias, também não vem.

Alguns, passam e me dão bom dia. Esses também esperam algo vindo de longe. Alguns param, conversam, ficam um tempo,me convidam para viajar com eles para longe. Eu recuso, eles tomam outro rumo. Há alguns que limitam-se a olhar para meu rosto e seguir em frente, nem parando para alguma cordialidade.

E eu, sempre sentada esperando, deixando que passe sem que eu sinta, as neves geladas, as flores que se abrem, chamando as primaveras e os verões. E eu, esperando...

Eis que chega o dia em que meu trem aponta. Da cor ferrugem com a qual eu sonhei, com o mesmo barulho pelo qual eu tanto tinha esperado.Alguém ou algo desconhecido viria me abraçar dali de dentro. E eu finalmente irira embora, numa nova vida!

Olhei-me no espelho para retocar a maquiagem e não reconheci quem olhava. Minha face já não era a mesma, era outra, um tanto mais velha. A pele estava áspera e os cabelos estavam esbranquiçados. Quando tempo havia se passado desde que comecei a esperar? Onde eu teria deixado a menininha de olhos curiosos? Caí em mim. O tempo havia roubado, e agora, só me deixava o que viria no trem. De qualquer forma, ainda valia a pena.


-Seu nome por favor, madame. - Disse-me um homem que saltava de um dos vagões.
-Deve haver algum engano. - respondi sem entender. - Estou aqui, apenas esperando.
-Todos estão. Esperando para embarcar. - Disse-me o simpático homem sorrindo.
-Não, não...estou esperando algo chegar...sempre esperei! - Disse-lhe desesperada.
-Ah...vocês são todos iguais. - E sorriu. - Teimam em esperar, sem entender que na verdade, a espera é o que vieram o tempo todo buscar.

E me levou consigo para o trem, para um novo horizonte.

Eu esperei sentada a vida toda. Nem me dignei a levantar para conhecer novos lugares,nem para pegar, nem que fosse por curiosidades, outros trens que vinham de lugares distantes. Quantos convites de embarque eu recusei...quantas manhãs eu desperdicei! No fundo, sempre tive medo!

Esperei tanto, para ir embora...passando, como quem apenas espera.


Imagem: site www.olhares.com
fotógrafa: Cristina Afonso
Texto: Yasmin Lara

2 comentários:

Varnion, o lobo solitário disse...

Maravilhosamente bem escrito.

Nas nossas vidas esperamos demais que um trem traga tudo o que queremos, sendo que é nossa a escolha de pegar o trem que melhor nos levará ao nosso destino.

beijos

Márcio Vandré disse...

Essa estação nada mais é que a vida.
As pessoas passam.
Tudo passa.
E o trem que esperamos nunca chega.

Belo, belo e belo texto! :)
Um beijo!