domingo, 29 de novembro de 2009

Fome

Dá-me um vazio no peito,
uma fome danada...
De que?
De quem?
Não sei.
Procuro e não acho.
É um buraco profundo,
labirinto de salas vazias.
Horas desgastadas.
Já desbotadas.
Luzes apagadas.
E essa fome danada...
Esse vazio no peito...
De que?
De quem?
Não sei.
Me procuro e não me acho.

domingo, 22 de novembro de 2009

Instante

Letras.
Gravura.
Rimas.
Descompasso.
Motivo: literatura,
Sem tempo, sem amor.
Sem espaço.

Tempo.
Vento.
Momento.
Passo.
Tudo, tudo é amargura.
Vida nublada que passa,
Longa vida que não dura

sábado, 14 de novembro de 2009

Tempo

A música acabou,
o som leve cessou,
e nem vi tudo parar.
A curta vida acabou,
o momento exato passou,
e nem vi se acabar.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Primaveras

Hoje completos 19 primaveras. Nem sempre floridas. Nem sempre tempestuosas. Sempre passageiras.

Completo 19 anos de existência, mais um dia perto da "indesejada da gente", como diria o sábio Manuel Bandeira. São pequeninos 19 anos diante da eternidade. 19 anos de desventuras em série, de aventuras esplendorosas. 19 anos de emoções diversas, de coleções de histórias para contar pelos ventos. Possuo bagagens para carregar pela vida a fora. Algumas, mais pesadas do que acho que consigo carregar. Mas carrego assim mesmo, para não deixar nada pra trás. Outras bagagens são leves como pluma, feitas do material impalpável dos sonhos escondidos em minhas gavetas trancadas. Indecifráveis.

Essas 19 primaveras não poderiam ser 19 primaveras sem a presença quase mágica das flores ao meu redor, emprestando um pouco de seu brilho ao todo, fazendo com que cada dia ensolarado valha a pena. Lembrando-me que os invernos tenebrosos sempre irão passar. Essas mesmas 19 primaveras não poderiam ser chamadas 19 primaveras sem a presença indesejável das ervas daninhas que também insistem em povoar meu jardim, fazendo com que eu nunca me esqueça de que também é preciso ser infeliz. Mas só um pouco.

Completo mais essa primavera, como sempre, incerta. Não possuo a vaga idéia de que estrada tomar. Sigo por alguns caminhos desconhecidos e tortos, a terra seca, prontos para serem semeados. E semeio vento, sonho. Algumas vezes, pesadelos. Poucas vezes. Vez ou outra tomo um atalho, noutras vezes, quero o caminho mais longo. Há dias em que teimo em voltar alguns passos para ver o que deixei para trás (a saudade convence-me com suas lamentações). Volto, olho, choro ou sorrio, continuo o passo. Em outros dias, sigo adiante rumo ao horizonte sem nem sequer olhar para trás. Nesses dias sou mais contente.

Vou indo, tocando em frente com esse corpo e alma mutáveis, tal como a lua. O corpo franzino e frágil de algumas estações, a alma idosa e dura de longos invernos.

Sigo com meus versos vãos e notas descompassadas. Mas não me importo. Amo o descompasso, o grito, a ausência de respostas, a falta de regras que me ensinem como seguir. Mas sigo. Teimosamente, eu sigo. Errando o andamento, assassinando a gramática.

Parto a cada novo amanhecer. Sou nova flor a cada instante, tentando podar meus excessos, ocupar minhas ausências excruciantes. Hora consigo, hora não. Paciência? Sobra-me e falta-me. Assim mesmo, na metade.

Parto sim, com a certeza de que meus botões coloridos um dia irão secar, que suas folhas secas desprender-se-ão dos galhos verdes, voando para um outro e longe lugar. O jardim seguirá seu curso, outras flores irão chegar, outras primaveras...Outro curso. Mas minhas lembranças de flores - tão lindas, tão raras! - hão de para sempre ficar.




4º Motivo da rosa

(Cecília Meireles)


Não te aflijas com a pétala que voa:
também é ser, deixar de ser assim.
Rosas verá, só de cinzas franzida,
mortas, intactas pelo teu jardim.


Eu deixo aroma até nos meus espinhos
ao longe, o vento vai falando de mim.
E por perder-me é que vão me lembrando,
por desfolhar-me é que não tenho fim.

Selo - Pega a Cadeira e Senta

Primeiramente, gostaria de parabéns o Márcio Vandré. Seu blog maravilhoso acabade completar um ano. Um ano de textos maravilhosos que sempre me encantam. O mais engraçado, é eu quem ganhei o presente, um selo lindo !
Muito obrigada, moço !!








Agora, outros seis blogs que amo ler:

1 - http://luizadefato.blogspot.com/
2 - http://sentidosdos2.blogspot.com/
3 - http://varniontheblack.blogspot.com/
4 - http://enfimnucomovim.blogspot.com/
5 - http://segredoscoalhados.blogspot.com/
6 - http://olhardentrodosolhos.blogspot.com/


Marcinho, mais uma vez: muitíssimo obrigada. Tudo de bom para ti, meu amigo!

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Selo - Café Preto

Agradecendo ao Márcio Vandré (www.contraotedio.blogspot.com) pelo selo. Muito obrigada mesmo, moço.
Mais que o selo, agradeço a amizade. Um selo vindo de alguém tão talentoso é uma honra para mim.
Abraços.




Indico os seguntes blogs para o selo. Todos merecedores. Todos maravilhosos.

1 - http://olhardentrodosolhos.blogspot.com/
2 - http://luizadefato.blogspot.com/
3 - http://varniontheblack.blogspot.com/
4 - http://sentidosdos2.blogspot.com/
5 - http://sergiopachecoartesplasticas.blogspot.com/

domingo, 1 de novembro de 2009

Borboleta

Perdoe a mim, amor desencontrado,
essa minha vasta e grande demora.
É que não sou a favor do tempo,
ando de mãos dadas ao vento,
e com ele vou-me embora.
Aguarde alerta a minha chegada,
que um dia ,enfim, apareço.
Nunca te vi, mas não te esqueço.
Só vôo longe, desgarrada.
Perdoe, sim, essa amarga demora.
Nosso imperdoável desencontro.
Sei que tudo já está pronto,
mas não sei chegar agora.




Imagem: Alegoria da Seda, Salvador Dalí

sábado, 24 de outubro de 2009

Diálogo de Tempo e Vento

Adormeço e ele chega, saboroso, esperto, curioso; batendo na porta do meu sonho, e eu, desavisada, abro. Abro porta e alma. Fico calada, ele sorri, zombando, em silêncio, de minha surpresa. Peço que ele entre, mas ele já está do lado de dentro, esparramado em meus sofás, íntimo, como um velho conhecido. Ele sempre estivera ali, ainda que eu não percebesse.

Pergunto-lhe sobre as minhas angústias, ele limita-se a me olhar, despindo toda a minha alma. E sorri. De novo.

Zango-me pelo amor perdido. Ele nem se move. Pergunto-lhe por que me aprisiona, ele diz que me liberta a cada instante. Discorro sobre a dor, ele se diz o herói do esquecimento. Eu, revoltada, o acuso de me levar ao sofrimento.

Ele gaba-se do poder, eu o acuso de me invejar. Pois por mais que ele queira permanecer por um tempo, sua natureza é de sempre passar.

E mostro fotos coloridas, lembranças, paisagens. Ele ri, dizendo que é ele quem leva tudo embora, para longe de meus abraços.

Eu choro. Ele ri novamente, sussurrando em meu ouvido que ele se completa, e que eu preciso de outro para me encontrar. Respondo que me importa mais é ter alguém para recordar.

E ficamos discutindo...Como sempre!
Ele se despede, mas eu sei que vai voltar, pois dele eu me esqueço, mas sou muito presente para ele possa me apagar.

Já na porta da saída, pergunto-lhe sobre sua amiga, quando irá me buscar. Ele diz-me que da morte, nem ele, o Tempo, saberá.
Abraça-me forte, como pena de minha vida frágil. Eu suspiro. Resigno-me. Dou um meio sorriso, escondo meu medo de não mais ser. Ele se vai, confuso, perdido. No fundo, ele queria não durar...



...Trilha sonora inspiradora: "Resposta ao Tempo"- Nana Caymmi (uma das letras de música mais lindas na minha opinião)...

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Versos Oníricos

É fantasia,
é céu,
é mar.
São devaneios do luar.
É conto,
é som,
saudade
e tom,
A linda arte de sonhar.
Sei que algo em mim avoa
e eu também quero voar.

Indo, indo... pra bem longe...
até o horizonte me abraçar.

domingo, 18 de outubro de 2009

Infância

Penso como eterna criança,
pois não aprendi, por exemplo,
a não ter medo de escuro.
Nunca me ensinaram a arte da solidão.
Penso como criança,
pois sonho alto.
Voando.
Temendo.
Continuando...
Penso como uma criança,
simplesmente porque sei
que quanto mais nos aproximamos da maturidade,
mais difícil torna-se a visão da verdade.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Linhas nostálgicas

Imagine uma menina pequena, olhando para uma árvore singela, abarrotada de pequenas bolas pretas. Saborosas!

-Não vou conseguir. É muito alto! - Diz essa menininha loira, amedrontada com o tronco magrelo e descascado. Frágil. Alto. Muito alto.

-Deixe de ser covarde, garota! É muito fácil! Você põe o pé aqui, o outro ali, e já está aqui em cima. - Responde o primo, com a boca cheia de frutinhas. Os outros garotos, também já trepados nos finos troncos das árvores, enchem suas bocas com as tais frutinhas.

Lá embaixo, ao lado da menininhha loira, uma bacia fica cada vez mais cheia de bolotinhas miúdas, ansiosas para serem futuramente devoradas por bocas impacientes. Eu disse devoradas? Não, senhor! Aquelas que sua imaginação cria ali embaixo são frutinhas intocáveis. Proibidas. Têm o nome da vovó em cada uma de suas curvas. Estão destinadas àquela geléia maravilhosa feita em casa, no tacho velho. Daquelas bem vermelhas, para serem degustadas com biscoitinhos, com café preto e forte e com as conversas açucaradas de fim de tarde ao lado do fogão à lenha. Cheiro de fumaça ao fundo. Fim de tarde chegando. Sol indo dormir, escondendo-se atrás das montanhas.

Pinte um pequeno quadro em sua cabeça mais ou menos assim: alguns garotos sapecas, uma garotinha loira, uma senhora gordinha mechendo o tacho velho no fogão, e elgumas tias preocupadas olhando pela janela o movimento nas árvores do lado de fora.

- Parem de fazer vontade na prima, meninos! Dêem logo jabuticaba pra ela!- Diz uma delas.
-Ah, ela é muito fresca! Se quer comer, tem que subir! - Responde um garoto loiro e magricela para a tia, olhando com cara feia para a menina lá embaixo.
-Não senhor! Ela é muito novinha. Dêem algumas para ela ou desçam todos daí! - Resignados, os primos endiabrados jogaram dezenas de bolinhas no chão.
-Quer? Então pegue!

Nunca duvide da gula de uma criança...

Agora leitor, procure sentir aquele cheirinho conhecido de café feito na hora. Imagine uma coleção de canequinhas brancas desbotadas pelo tempo sendo colocadas com carinho sobre a mesa de oito lugares da sala de jantar. Imagine aquelas bolotinhas pretas fazendo ploc ploc enquanto se estouram em bocas dementes, deixando escorrer aquele caldinho doce pelas bochechas rosadas de algumas crianças. Elas nem ligam pra isso.

O fogão a lenha está aceso e dentro da casinha branca você sente o cheiro da fumaça que entra pelas janelas abertas. Sente-se na cadeira antiga da mesa e sirva-se à vontade. A vovó gosta de visitas, e se você permitir, irá lhe contar algumas histórias das mais curiosas. Histórias de tempos antigos, histórias de sua infância. Boas histórias para te ninar. Ou para te assustar.

Se você resolver ficar para dormir, poderá ver as estrelas e a lua como se estivessem bem mais perto que de costume. Brilhantes. Convidativas. Dormirá com o cheiro de terra e o barulhinho suave dos ventos nas árvores. O vento nas jabuticabeiras do pomar. Você gostará de dormir, leitor. Quando acordar, descerá as escadas e encontrará a mesa pronta. Queijo. O café, que não pode faltar. A geléia que a vovó fez com as jabuticabas que os meninos levados panharam do pé. Você provará dessas bolinhas pretas, tenho certeza. E vai querer mais. E mais. E mais. Você ouvirá mais histórias. Irá ver as crianças correndo pela casa a fora, pelo quintal gigante. Vá brincar com eles!

Quando for embora, sentirá saudades, tenho certeza. Eu senti. Ainda sinto. Todos os dias, sempre que provo o sabor da minha adorada bolinha preta. Nenhuma tem o mesmo gosto daquela época em que eu tinha medo de subir nas árvores para me fartar. Nenhuma geléia é tão doce quanto àquela que a vovó fazia, mas que não podia ser devorada antes do almoço ou do jantar. Eu sinto saudades, leitor. Você também sentirá quando deixar pra lá as linhas nostálgicas desse texto. Não há como não se encantar com o gosto único e inimitável das tardes na casa da avó, com as traquinagens com os primos. Com as saudades que sentimos de tudo isso. Quando largar esse texto, procure algo no fundo das suas memórias mais lindas. Acredito que você também tenha uma história gostosa pra contar. Compartilhe comigo nessa mesa de café da tarde. O sol descansa nas montanhas. Quero ouvir suas palavras enquanto tomamos café. E devoramos pequenas jabuticabas.

sábado, 10 de outubro de 2009

Dueto

....Márcio Vandré e Yasmin Lara...


Lá no horizonte surge um sol
brilhante, como jóias raras.
Sua luz incessante clareia o dia.
perfeito, como uma sinfonia.
De longe vêm os pássaros com a cantoria,
suas notas alegres fazendo-me companhia,
Desvanecem qualquer monotonia.
Ah, caro sol, deixe-me em ti me acolher!
Completar o quebra-cabeça que é viver.
Se me abandonas assim, em sombras,
fico na corda bamba, perdido no escuro do meu ser.
Quero mais é essa claridade infinita!
Absoluta, como a sensação da música que finda.
Quero essa felicidade constante
Chega de sorrisos por instantes.
Ah, caro sol, quero brilhar!
Para sempre, até essa minha louca vida terminar!
Não quero esperar o inverno chegar..


...uma pequena experiência extremamente prazerosa entre duas pessoas apaixonadas pela arte de ser com palavras. Bendito aquele que inventou o MSN, rs...

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Assim...

Assim é o amor:
...
Assim é a dor:
...
Assim é o acaso:
...
Assim, desamor:
...


Assim é a vida, assim é a palavra
seguindo viagem sem definição.
Três pontos eternos,
três vagas lembranças.
Essas reticências no meu coração.

domingo, 4 de outubro de 2009

Poeminha Desconexo

É começo?
Fim.
É o fim?
Refaço!

Entendeu alguma coisa?
Ah...é só descompasso.


...estou postando esse poema só e unicamente como protesto! Entendam que ele está incrivelmente incompleto. Mas já sentiu o sabor da completude. A história? Bem...escrevi um poeminha cuja métrica e palavras ficaram, em suma, perfeitas! Perfeitas de acordo com o que eu me propus a escrever. Uma daquelas idéias que surgem, brilhantes de dentro de nossas cabecinhas cheias de hiatos. Quando fui copiar do bloco de notas para o blog, perdi todas as minhas palavras num único e breve clique. Apenas um. Senti-me como se perdese uma pequenina parte de mim (o que não deixa de ser verdade, visto que minhas palavras são como realmente pedacinhos meus). Imagine você o sentimento de Michelangelo se ele derramasse tinta preta sobre sua recém pintada Capela Sistina e você terá uma vaga idéia do que passou-me pela cabeça. O mais incrivelmente irônico, foram esses quase malditos últimos versos sobre refazer algo perdido. Posso estar desenvolvendo um caso de paranóia, mas meu próprio poema está rindo da minha cara com esses versos finais. Nada mais a declarar além dessa minha imensa ira por mim mesma. Coitadinhas das minhas palavrinhas! Tão bonitinhas ali, bem escritas. Com vida! Agora apagadas, mortas, cinzas, nada...

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Soneto para a Ausência

Não estou preparada pra essa tua ausência,amor,
que em meio a esse meu mundo dormente
teima em fazer-se onipresente
roubando de minhas tintas, a cor.

Não estou preparada pra essa tua inexistência,
pra essa tua falta que insiste em fazer-me morrer.
Não quero mais essa alegria de aparência
que não pode, nem me deixa te esquecer.

Quero-te mais é aqui, sempre presente!
Completando meu corpo com o seu ardor.
Que nunca mais pense em fazer-te asusente

Pois essa solidão deixa-me impaciente,
esse vazio de ti torna-me demente,
sem você sou só o que remete a dor.

...apenas uma pequena experiência com sonetos...





Imagem: http://br.olhares.com/ausencia_foto848525.html
Artista: u m b r i a

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Impromptu

Ela bem que tentou. Por anos, levou aquela promessa de “para sempre” dentro do coração pulsante, naquela esperança quase pueril de realização de um sonho de longa data. Mas chegou o cansaço e levou tudo embora. Desde as lembranças sagradas de mil beijos quentes, até as memórias mais tristes que teimaram em acontecer.

Queria bem que não tivesse sido assim. Mas foi. Nada mais a fazer. Já não era mais aquela adolescente mimada disposta a cruzar fronteiras para o ser amado. Ela havia crescido. Também por dentro. Bastava de promessas inúteis e de vontades vãs. Que ele ficasse com a sua outra. Nem tão amorosa. Sem tantas histórias. Ele que seguisse sem ela, pois se cansara de olhares mentirosos e abraços passageiros feitos de carência, abandono e desespero.

Olhou para si mesma pelo retrovisor do carro. Outra. Mais nobre. Com os olhos inchados. Para onde dirigia? Não sabia...Mas ia! Sem rumo... A estrada era o que importava. A estrada, suas árvores, seu asfalto e aquelas gotas grossas e transparentes que caíam do céu. Como lágrimas. Tempo nublado e frio. Coração frio e nublado. Soluços. A certeza do fim, mas também, aquela certeza completa de quem faz a coisa certa.

O pára brisa trabalhava, enlouquecido. Ela abriu a janela e jogou para bem longe a aliança prateada que tirara violentamente do dedo num segundo de raiva. Ele nem tinha mais a dele. A dela era antiga. Como seu amor. Enferrujada.

A estrada ia e o carro a levava sabe-se lá para onde. Ela nem ligava. Gostava do mistério.

...Dando continuidade a esse meu surto de posts imensos, postei um texto feito sob medida para uma amiga especial. Uma encomenda, para falar a verdade. Como a realidade fora dessas linhas não é tão bonita nem tão romântica (como tudo na vida), resolvi dar uma de Yasmin e colorir tudo. Uma metáfora aqui, uma firula ali...Espero sinceramente que ela não se importe.
Então moça, para você. Como prometido!
Mil abraços fortes de agradecimento por ter me emprestado um pouquinho da sua história !...

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Coexistência

Há tanto amor em mim, enclausurado, que quero encontrar quem o mereça para que não exploda em fogos de artifício algo em meu íntimo, transformando-me em torrente nervosa e vadia vazando para fora de mim, indo para algum outro lugar.

Tenho tanto aqui, guardado a sete chaves, que vazo. Sobro. Sou grande e não me caibo. O amor toma-me por completa, e não satisfeito em roubar-me a sensatez de outros pensamentos menos complexos, cresce como um matagal em campo aberto. Irrefreável. Crescente, quer ocupar-me mais do que tenho a oferecer, por isso expulsa-me de mim. Não mais me pertenço.

O amor egoísta que cultivo em meu peito quer logo uma outra casa para se ampliar, pois ele mesmo não se aguenta e não se cabe. Sou casa pequena, incompleta, mal pintada. E assim vai...matando-me por dentro como um verme parasita. Mas ainda sim, coexistimos. Vez ou outra sou eu quem parasito o amor, roubando-lhe silenciosamente algumas migalhas para alimentar-me de sonho. Ele, por sua vez quer minha vida, meus anseios, meus profundos desejos. E os têm.

Quero ainda mais do amor, quero sua euforia pueril, sua dor excruciante. Apenas para falar que sinto. Sentir é bom. E nossos vazios são tão imensos que unidos, se completam. E nesse encontro, somos como dois rios cheios que se encontram furiosamente. Eu e o amor. De nosso abraço, forma-se uma onda gigantesca que não encontra lugar para dar vazão a tanta fúria. E vaza. Hora pelos meus olhos, como espelhos de águas calmas, derramadas silenciosamente pelos traços de meu rosto. Hora, pelas linhas mal escritas num papel borrado. Assim vivemos os dois. Vazando. Coexistindo. Mas amando...

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Poeminha Bobo

Lua, Lua, diga-me, Lua:
Não te cansas de brilhar?
Não vês que esse moço danado
não consegue parar de te olhar?

Lua, Lua, ensina-me, Lua
a nobre arte de rimar.
Quem sabe assim, com essas palavras,
o moço eu não possa conquistar?

sábado, 19 de setembro de 2009

Mais uma vez (de novo)

Achei que tinha perdido,
pensei que tinha partido
esse palpitar animado
que tomava meu coração.

Eis que chegam novos tempos,
novos ares, outros ventos
trazendo para dentro de mim
essa velha e nova emoção.


...com o perdão da redundância...







Imagem: http://br.olhares.com/o_coracao_foto509622.html
Artista: Nuno Ricardo Chaves

domingo, 13 de setembro de 2009

Colo

Não chores flor,
que assim morre um pouco de meu mundo,
teu pranto leva-me a lagos profundos
de onde não irei mais sair.
Não chores flor, que essa canção é bela.
Ainda que não escutes esses acordes dela,
ainda que tudo que vejas seja um mundo a te desiludir.
Não chores, pois te pegarei no colo
e te embalarei até que amanheça um novo dia,
até que tudo vire simpatia,
até que tudo pare de mudar.
Durma e não chores flor,
pois todo esse pavor e ira
nada mais são que mentira
e o sol já vai despontar.





Imagem: http://br.olhares.com/lagrima_foto1327005.html
Artista: Gilson Carrara


...Chan, Chan, Chan...pare de chorar na frente da tua irmã que ela não aguenta uai. Assim não pode, rs. A senhorita está proibida de assistir filmes tristes. E tenho dito!...

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Passos

Passo, não paro.
Trilhando mil passos
nesse solitário e inútil vagar.
Vou e não volto.
Busco o que sonho
em um longe e outro lugar.



Imagem: http://br.olhares.com/pe_ante_pe_sincronizando_os_passos_foto571882.html
Artista: Paulo Cesar

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Noite

Ela brilha no alto, inspirando teu sonhar.
Longe...Longe...Faz-se bela!
Ah, quem dera olhar-me no espelho
e ver beleza radiante como a dela!

domingo, 30 de agosto de 2009

Azul

Quero pintar-me de azul.
Tornar-me azul...um ser azul!
Que azuis sejam meus sonhos,
minhas esperanças,
minhas flores.
Que sejam azuis meus olhares,
meus caminhos,
o cenário de minhas tantas poses.
O meu pequeno e escasso espaço.
Que tudo seja Azul!
Céu, mar e música.
Poesia, carmim, fúcsia.
Que tornem-se azuis esses meus dias gris,
que venham repletos de cor a cada novo amanhecer,
nessa aquarela de tons castigados,
as tintas unem-se para que o azul possa nascer.




Imagem: http://br.olhares.com/tsunami_azul_foto537269.html
Fotógrafo: Eneas A Lopes

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Selando

Venho colocar o selo que recebi do Márcio Vandré (www.contraotedio.blogspot.com). Muito obrigada, seu moço!






- Regrinhas básicas

1. Exiba a imagem do selo “Blog de Ouro”.
2. Poste o link do blog de quem te indicou.
3. Indique 4 blogs de sua preferência.
4. Avise seus indicados.
5. Publique as regras.
6. Confira se os blogs indicados repassaram o selo


-Blogs indicados:

http://olhardentrodosolhos.blogspot.com/

http://todanuaebemvinda.blogspot.com/

http://luizadefato.blogspot.com/

http://sentidosdos2.blogspot.com/

Mais uma vez: muito obrigada, Márcio.
Beijos !
=D

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Pois é, Zé !

Pois é, Zé!
O coração dela parou de pular.
Antes tão animado, parece cansado,
não quer mais farrear.
Só bate.
Bem lento.
Mas não pára,
espera outra hora, outro canto, outro engano
que o faça voltar a voar.
Mas enquanto o futuro não chega,
ele faz o seu velho tum tum tum no mesmo canto,
nesse mesmo lugar.
O mesmo que fazia bem antes de você chegar.
O que mudou foi o motivo...
Essas horas, esse vazio
fizeram o coração se cansar de esperar.
A primavera volta, o tempo passa,
o coração desabrocha num outro passo -mais bonito- a dançar.
Ele bate, e isso lhe basta.
Isso sempre soube lhe completar!

Tum-tum, tum-tum, tum-tum...




....trilha sonora mais-que-inspiradora: Regra Três (Toquinho e Vinícius)! Vale a pena escutar! ...


Imagem: La songeuse: Jeune Femme
Artista: Renoir

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Improviso sobre a ausência na distância

Mesmo que distante,
em outras nuvens, outro céu,
busco nessas esquinas teu olhar.
Amiga especial, pessoa sem igual
que vaga por um outro caminho, outro lugar.
Teimosa, eu digo a meu coração
que a hora de nosso reencontro há de chegar,
mas ele teima,essa criança tola,
quer agora teu olhar.
Meu carinho, minha amiga,
vai além desse mundo espacial,
dessa realidade torta,
desse alma espectral,
de mil versos de saudades.
Ele foge, ele vaga, ele naõ morre!
Não padece, pois nunca aprendeu a te esquecer.
E indo, indo,mesmo sentindo tua ausência
sei que nunca irá fenecer.




...dedicado ao Albert, que me pediu (na verdade, me propôs um desafio, e eu, como não conseguiria fazer outra coisa, topei)um poema. Totalmente de improviso. E dedicado também à Mary, prima e amiga do Albert, que foi o tema central dessas linhas. Beijinhos a vocês !!...

Imagem: http://br.olhares.com/a_amizade_em_crianca_foto585439.html
Artista: Carla Vicente

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Versos

Não sei falar essa língua prolixa de vozes,
essa linguagem torta
de frases incompletas.
Mas sei gritar em versos.
E grito alto em papel e tinta.
Em versos sou linda !
Apenas mortal, apenas infinda.
E vou versificando meus desejos nas linhas,
em letras bordadas de livro antigo.
Sou em versos, pois assim fico eterna.
Sou assim, pois morri e esqueci de me enterrar.
E vou escrevendo, indo...indo...
até meus dedos pararem de me acompanhar.





Imagem: http://br.olhares.com/sentes_como_os_versos_se_enrolam_e_se_tocam_foto938272.html

Artista: Carla Salgueiro

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Ponteiros

A maldição das paixões,
é esse certo vazio de espera,
de expectativa,
de vontades jogadas ao chão.
E se fugimos um instante dessa realidade,
dessa densa e malfadada saudade,
são apenas minutos sorrateiros que vêm...
apenas horas passantes que vão...
tic, tac
tic, tac,
tic, tac,
tic,......




Imagem: http://br.olhares.com/entre_ponteiros_foto1661958.html
Artista: Pedro Silveira

terça-feira, 28 de julho de 2009

Excessos

Tento lá longe
procurar outro lado,
a metade que falta,
aquilo que quer sobrar.
E no entanto me volto,
no espelho não acho
entre reflexos, atalhos
a peça encaixante
que vá me acalmar.
A dor excrucitante
se torna dormente,
minh'alma procura, demente
o nome dessa ausência presente
que teima a me incomodar.
Porém não vejo
nada mais que o meu desejo
de te encontrar.
É você o que sobra,
é você o que falta.
É voce meu excesso que teima em não me deixar.

sexta-feira, 24 de julho de 2009

Leve

Sou feita do material do vento,
leve, leve, feito pluma.
Se num momento sou tudo,
noutro sou apenas uma.

Poetisa, fugidia e vaga,
me perco sem norte, guio-me na lua.
Se num momento sou leve e solta,
noutro sou apenas tua.




Imagem: http://br.olhares.com/pluma_foto927749.html
Galria do Artista Jorge Froes

sábado, 18 de julho de 2009

E a vida...

A vida vinha e a gente não tinha
nada a oferecer.
Agora ela passa, e o tempo estilhaça
essas horas bizarras
que não querem permanecer.





Imagem: http://br.olhares.com/murchas_foto1441242.html
Artista: miducha


...esse post merece um poema de Cecília Meireles, se me permitem:

"4º Motivo da Rosa

Não te aflijas com a pétala que voa,
também é ser, deixar de ser assim.
Rosas verá, só de cinzas franzida,
mortas, intactas pelo teu jardim.

Eu deixo aroma até nos meus espinhos
ao longe, o vento vai falando de mim.
E por perder-me é que vão me lembrando,
por desfolhar-me é que não tenho fim. "


segunda-feira, 13 de julho de 2009

Desencontros

-Por que o desencontro?
-Ah, é que eu vinha quando ele vinha
e ele se foi.
Nem disse tchau.
Nem olhou pra trás.
Depois eu vim quando ele estava,
E também parti.
Também me perdi.
E o tempo se foi...




Trilha sonora inspiradora: Le Moulin/Yann Tiersen (Cenas do filme "O Fabuloso destino de Amelie Poulain")

...pq desencoontros são mais comuns do que imaginamos. Eles simplesmente acontecem...
PS: Deixo aquí implícita a minha paixão imensa por Yann Tiersen

domingo, 12 de julho de 2009

Selando

Sinto-me lisonjeada por ter sido indicada para esse selo pela Luiza (www.luizadefato.blogspot.com).
Agradeço mil vezes pela indicação. E agradeço de verdade.
Fiquei imensamente feliz por isso, e digo que isso só aumenta minha vontade (que já é imensa) de escrever tudo, pois acredito no poder das palavras!

Com muito carinho, coloco aqui o selo:





*Obrigações do selado*:

5 características minhas:

-Tímida
-Observadora
-Medrosa
-Temperamental
-Criativa

Listar 5 desejos:

-Encontrar meu rumo e o que me satisfaça nessa vida.
-Tocar violino como se minha vida dependesse disto.
-Escrever, escrever, escrever...
-Largar de lado todos os meus medos.
-Ter coragem para lutar pelos meus sonhos.

Indicar 5 blogs:

Wings of music (http://varniontheblack.blogspot.com/)
"ENFIM, NU,COMO VIM" (http://enfimnucomovim.blogspot.com/)
Ponderamentos meus... (http://ponderamentosmeus.blogspot.com/)
POLIFONIA - Baixe e seja feliz (http://polifoniadownload.blogspot.com/)
SEntimentos (http://sentidosdos2.blogspot.com/)

Então, é isso!!
Mais uma vez, agradeço a Luiza!

quarta-feira, 8 de julho de 2009

Linha

Mínima linha vazia,
ela diz-me aonde vou.
Nessa linha pequenina me cabe,
de tão pouca e rasa que sou.

Incompleta

Ser, estar, amar...
Em nada disso sou completa.
Mas imperfeita, me procuro.
Quero ver-me descoberta.

Mas vivo, canto
e recriar-me é tudo...
Vôo. Fico. Continuo. Passo.
E procuro pelos meus tempos
aquilo que há de dar ritmo a meu compasso.

Somente assim continuo.
Somente assim não me canso.

domingo, 28 de junho de 2009

Gira Mundo

Mundo, mundo
gira o mundo,
e eu me canso de rodar.
Ele girando,
vai passando,
Não se cansa de mudar.

Pena que esse mundo apressado
se cansou de me esperar!





Imagem: http://br.olhares.com/caminhando_pa_t_encontar_foto1518828.html
Artista: Marisa Gonçalves


...porque o mundo realmente se cansou de me esperar...

sexta-feira, 26 de junho de 2009

Caleidoscópios

E ela que achou que era tudo igual...
Tudo o mesmo, tudo real.
Tudo de verdade.
Tudo sempre igual.
Estava enganada...
Era tudo caleidoscópico.
O mundo. As cores. As pessoas.
Sempre mutáveis.
Sempre estando. Nunca sendo.
Sempre caleidoscópicas.





Imagem: http://br.olhares.com/caleidoscopio_foto1566823.html
Artista: Fernando Teixeira

...Sou uma fã de caleidoscópios. E das suas mudanças. De suas inconstâncias. Somos todos um tanto caleidoscópicos. Sem lógica...

terça-feira, 23 de junho de 2009

Se for

Se for para amar,
que se amem como as palavras entregam-se à pauta.
Suavemente.
Livremente.
Sem pressa.
Se for para amar,
que ao menos não seja mentira,
que não precise ser para sempre,
que se aproveite cada segundo insano.
Que seja mais que eternidades castigadas,
que infinitos desgarradas de meu tempo.
Se for para amar,
que amem como ama o amor,
em todas as suas formas,
em todos os seus caminhos persistentes.
Que seja como fogo,
como brisa.
Gelo derretendo aos poucos.
Se for...que seja!
Simplesmente.




Imagem: http://br.olhares.com/fogo_2_foto1020698.html
Artista: Diana Oliveira

segunda-feira, 22 de junho de 2009

Veredas

Nas veredas do tempo
me desdobro, me desfaço.
Nada sei do que virá, enfim...
sei que sim, me descompasso.




Imagem: http://br.olhares.com/o_tempo_passa_o_amor_nao_foto1013144.html
Artista: Ana Rita Rodrigues

Dancinha

Se você ficasse, se você me amasse
tomaria um beijo seu nesse momento.
Mas se você fosse para longe agora
eu iria embora sempre em sofrimento.

E essa eternidade não é mais que nada
se esse tempo aflito teimar a passar.
Sem você não fico, sem você eu morro,
sem você a vida não sabe alegrar.






Imagem: http://br.olhares.com/luz___sombra_foto2047467.html
Artista: Rita Loureiro


...mais pela métrica dos versos que pelo significado das palavras(ou pelos dois). E porque eu acho compassos 6/8 muito simpáticos, rs...

domingo, 21 de junho de 2009

Das coisas efêmeras...

Remando, remando,
seguindo as águas, deixando-me levar.
Sei que o rio vai correndo
e eu também não sei ficar.




Imagem: http://br.olhares.com/depois_do_sol_se_ir_foto1783357.html
Artista: Rui Pedro Queirós

quinta-feira, 18 de junho de 2009

Lepidopteras

Voam borboletas.
Milhares. Milhões.
E estão por toda parte de mim,
ziguezagueando, batendo suas asas coloridas
por dentro de todo o meu ser.
E voam.
Irriquietas.
Inocentes.
Frenéticas.
Você ali, parado.
Observando.
E elas, borboletas,
só de te verem,
começam a borboletear pela minha barriga.
E um frio de expectativa chega,
batendo na porta de meus sonhos.
Meus olhos vidram.
E ainda estão a te mirar.
E essas borboletas,
de tantas cores e tamanhos,
não se cansam de em mim voar.
E voam.
Alegres.
Contentes.
Alvoroçadas.
Voando...
Como eu...





Imagem: Vitor Santana

...colega, obrigada por me deixar "afanar" sua foto, hehehe...

domingo, 14 de junho de 2009

Ausência

Uma ausência é falta, é morte,
é pecado sem perdão.
Ausência nada mais é que um vazio palatável,
uma dor inimaginável,
uma porção de areia, afundando aos poucos
para dentro do chão.
É olhar pela janela e nada ver.
É quando a única coisa que resta é tentar esquecer.
É perder-se em palavras sem sentido,
em neologias que não explicam o vazio,
é um frio que não se pode aquecer.
Ausência é mais que sentir saudade.
Pois essa tras como companheira a lembrança,
a memória colorida,
as fotos antigas em preto e branco.
Ausência não.
Ela vem sozinha,
solitária, sem nada para amenizar.
Ausência é um nada que pouco a pouco nos faz acabar.

sexta-feira, 12 de junho de 2009

Janela

Se você não vem,
nada é tranquilo.
Tudo pesa.
Tudo passa.
Tudo aguarda na janela.
Se você não vem,
faço das horas minhas esperas,
dos dias meus poemas,
dos segundos minhas quimeras.
E te aguardo,
te sinto,
te busco.
Quebro-me.
Fico na metade.
Se você não vem,
na verdade não sou nada,
apenas um vazio nessa estrada.



...porque a gente passa muito tempo só esperando na janela...

Imagem: http://br.olhares.com/janela_discreta_foto933615.html
Galeria do artista: Joseph de Sousa

quinta-feira, 11 de junho de 2009

Criatividade

Penso.
Dramatizo.
Invento.
Sonho.
Inverto.
Desmonto.
Destruo.
Recrio.
Teço.
Me envolvo.
Removo.
Corto.
Sinto.
Amo.
Escrevo.
Rimo.
Somente assim sou coerente.
Só assim faço-me completa.





Imagem: http://br.olhares.com/vermelho_vermelhao_foto1442800.html
Galeria da artista: Maria Isabel Batista

domingo, 31 de maio de 2009

Emalem essas saudades

Emalem essas saudades!
Quero mais é vê-las partir sem despedida,
passando pelo meu portão sem olhar para trás.
Batendo as portas com pressa. Com raiva.
Para não retornar jamais.
Deixem que sequem na memória essas gotas de chuva,
essas memórias cinzas,
essas horas castigadas.
Já não quero mais presente essas faltas
que em meu peito jazem infindas e enraizadas.
Quero esquecer-me desses novos passos,
dessa nova dança que aprendemos sozinhos.
Separados.
Quero que tudo se perca pelo tempo a fora,
expulsando de minha vida esse pulsar vazio que é o recordar.
Quero que emalem-se essas ausências,
pois o muito é demais, e já são muitas saudades
do que sei que não terei novamente jamais.



..Geralmente, eu penso, escrevo, aí escolho a imagem. Esse poema foi o oposto. Estava eu, zanzando pelo site olhares. com, quando me deparo com essa foto. O título dela foi o que mais me chamou a atenção, e me inspirou, rs. "Emalam-se as saudades", isso é lindo !!...

Imagem: http://br.olhares.com/emalam-se_as_saudades_foto2544729.html
Galeria da Artista: Maria São Miguel
Trilha sonora inspiradora: Janta (Marcelo Camelo)

terça-feira, 26 de maio de 2009

Lembranças mínimas

Ainda lembro-me do cheiro adocicado de minha avó, que vinha da cozinha cor de caramelo nos fundos da casa, e embalava-me. Lembro-me do cheiro de bolo no forno, de feijão cozido e de expectativa (pois até as minhas expectativas tinham um cheiro,ou um sabor quase palatável em minha língua).

Lembro-me, com uma quase mágica exatidão, dos fins de tarde na casa pequena, na rua mínima e calma onde moravam os meus avós. E desenho na lembrança a grande porta de correr, que levava ao jardim. Engraçado...aquele jardim, tão pequeno, tão simples, tão puro; já foi em minha imaginação imenso, grande, infindo. E o papagaio tagarelava, e os adultos conversavam, e eu pequena em maio ao grande, ia...perdendo-me pelos cantos da casa, pelos cantos das conversas, pelas barras das saias.

Ainda ouço a música que saía de um violão, de um saxofone, as cantorias de Natal e ano novo. E sinto saudades. Quase morro. Mas sinto mesmo assim, mesmo sem saber ou querer, pois isso me embala nos dias sem som, nos dias mais ruíns.

Minha lembrança, como uma caixa, guarda a sete chaves as memórias mínimas e singelas de minha meninice. Guarda por exemplo, os abraços mais fortes de minha avó rechonchuda, o sabor da comida especial de domingo, as histórias de terror de minha tia, as travessuras de meus primos sapecas, o carinho excepcional de minha mãe. Mas cresci. Sem sentir. Mesmo assim, de teimosa, continuo a guardar. Somente através dessas lembranças já passadas - nunca olvidadas -, é que eu lembro-me de onde vim, como comecei, como amei. Somente através do meu relicário de memórias - tão sagrado, tão bem escondido no peito - é que consigo seguir em frente, sem a tristeza de não ter vivido, sem amarguras. Somente com uma saudade apertada de quem já se foi, do já passou, do que já provei. Mas sei, com a certeza que me foi dada pelo passar dos anos, que só de guardar em mim as coisas mais simples, é que vou amando, partindo sonhando. Despedindo-me. Sempre dizendo a mim mesma como fui feliz, e como ainda hei de ser, seguindo os exemplos aprendidos, pois a vida, ainda que passageira, vale a pena para aqueles que amam. Para aqueles que sonham.






... principalmente para a minha avó, dona Mercês, de quem eu sinto saudades imensas, e quem eu guardo(junto com as mais gostosas lembranças da minha infância) no fundo do meu relicário de memórias. Jamais me esquecerei daqueles tempos tão maravilhosos...

"Oh! que saudades que tenho
Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais!" (Casimiro de Abreu


Imagem: http://br.olhares.com/memorias_foto1265143.html
Galeria do Artista César Ribeiro

sexta-feira, 22 de maio de 2009

Como o tempo arrastou meus dias



Quando dei por mim, já era tarde, quase noite (ou seria quase dia?). Já sentia-me velha e sem vida. Algumas rugas imaginárias tomavam conta do meu rosto e eu via, em vez de loiros, brancos os fios do meu cabelo. Até pensei que tivesse passado dois dias, dois anos, dois séculos. Mas foram apenas as horas que quiseram teimar e correr. Indo...

Quando vi-me sentada, quieta, calada, eram tantos os grandes problemas, que eu sentia pesarem em minhas costas mil quilos de dúvidas e incertezas. Quilos e mais quilos de infelicidade. E eu carregava tudo, deixando minha alma mais suja, mais corcunda, mais cinza.

As flores do jardim pareciam não mais existir, embora ainda fosse a mesma primavera, o mesmo céu, e o jardim ainda estivesse no mesmo lugar. Eu quem não estava, embora ainda fosse fisicamente moça e estivesse ali, parada. Parecia contar mil anos, ou parecia nem saber mais contar. Ou talvez, não quisesse mais saber de contar.

O tempo arrastou meus dias devagar, sem aviso, sem pesar. Arrastou a cada dia de decepções, a cada dia de incalculáveis saudades, de infinitos amores, de escolhas obrigadas, de manhãs insanas, de noites de insônia. Ele arrastou-me com ele sem dó, simplesmente por ter que passar. Eu fui levando, deixando-me guiar no escuro, levando de leve...Simplesmente por levar, assim como o rio leva para longe as suas águas. A diferença é que o rio sabe aonde vai desaguar, eu, ainda estou deixando-me pelo tempo arrastar.


Imagem: http://br.olhares.com/partiste_hoje_foto886342.html
Galeria da artista Carla Salgueiro

*Agradecimento mais que especial ao meu amigo Bruno por seu último texto (www.varniontheblack.blogspot.com). Eu gostei tanto, que além de me inspirar a escrever esse, me deixou pensando por dias. (Acho que me sinto tão curiosamente velha quanto você moço, rs)

domingo, 17 de maio de 2009

Quando o amor ama sozinho

Quando o amor ama sozinho,
busca em salas vazias, nos quartos escuros
algo que o complete, para inventar.
E buscando, se perde, adoece,
sem saber que o imaginado não pode se concretizar.

Quando o amor ama sozinho,
teima em pintar telas de cores vazias,
dizendo o que quer ver, o que sente.
Mas na verdade, o amor sabe
que tudo aquilo pincelado, é parte de si mesmo, que mente!

Quando o amor ama sozinho,
sobra vagas e hiatos no coração.
E palpita...
Batendo incansavelmente sem parar.
Mas o amor, amando sozinho,
sabe que esse é um sentimento egoísta
prestes a definhar.


...Realmente, devia estar sentindo falta das rimas. Sinceramente, não foi o meu melhor poema dos últimos tempos, mas como foi escrito, acho que merece ser postado...




Imagem: http://br.olhares.com/sozinho_foto630434.html
Artista: Joao Barbosa
Poema (?): Yasmin Lara

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Todo mundo merece ler Quintana...

Nos salões do sonho

Mas vocês não repararam, não?!
Nos salões do sonho nunca há espelhos...
Por quê?
Será porque somos tão nós mesmos
Que dispensamos o vão testemunho dos reflexos?
Ou, então
- e aqui começa um arrepio -
Seremos acaso tão outros?
Tão outros mesmos que não suportaríamos a visão daquilo,
Daquela coisa que nos estivesse olhando fixamente do outro lado,
Se espelhos houvesse!
Ninguém pode saber... Só o diria
Mas nada diz,
Por motivos que só ele conhece,
O misterioso Cenarista dos Sonhos!


- Mario Quintana; Velório sem defunto, 1990 -


Resolvi colocar um poema de Mário Quintana por aqui, simplesmente porque não consigo imaginar um ser humano que não mereça ter contato com as palavras dele. Muito mais que palavras até: mágica!

Quintana escrevia com aquelas palavras que acariciam devagarinho antes de dormir. E a gente dorme. E sonha. São aquelas palavrinhas mágicas que dizem mais do que o que a gente quer dizer, elas são tanto da gente, que deveríamos poder tomá-las para nós, tatuando-as na pele para nunca mais irem embora.

Eu me apaixonei por esse poema. Achei-o extremamente curioso. Entendi dele, que temos tanto medo de olhar no fundo de nós mesmos, que evitamos olhar pelo espelho. Talvez sejamos outros, que nem conhecemos, talvez sejamos menos do que queremos ver, talvez tal como gostaríamos. Mas temos medo. Não olhamos. O elemento surpresa não nos atrai, preferimos a covardia. E vamos assim...sem saber ao certo o que há do outro lado, no reflexo.

terça-feira, 12 de maio de 2009

Se...


Se você viesse,
vestiria meu melhor vestido,
aquele, em pé no armário, bordado de flores
já desbotado de tanto esperar.
Mas vestiria mesmo assim,
para que seus olhos pudessem me admirar.
E me pentearia calmamente,
despedindo-me devagar da saudade, sem pressa alguma de fazê-la voltar.
Se você viesse, se você chegasse,
eu aprontaria meu mais belo sorriso,
e te esperaria sentada em nossa casa
cheia de lembranças para lhe narrar.
Lembranças de dias cinzas, de segundos monótonos,
das horas em que não estavas comigo para me ajudar a contar.
E te presentearia com meus olhos de vidro,
tão cansados de chorar.
Isso tudo, se você viesse,se você chegasse...
para que eu, enfim, pare de te inventar.


...porque eu já sentia falta de rimar...não são assim, as melhores rimas que existem, mas voilà...



Poema: Yasmin Lara
Imagem: http://br.olhares.com/e_romeu_nao_vem_foto1827294.html
Autor: Eduardo Gonçalves

segunda-feira, 11 de maio de 2009

Avisão...

Amo o que não vejo,
por perder-me nos cantos da imaginação.
E nessa divagação, passo a tecer sonhos,
a tecer mil palavras.
E falo baixo.
Me elevo tão alto!
Amo, sem precisar ver,
pois aprendi com a vida,
a devorar saborosamente o que sinto,
a tocar o que lembro,
a adorar o que crio,
a dormir no que sonho.

(28/03/2009 - 10/04/2009)



Esse poema mereceu ser postado, apenas por ser incrivelmente curioso. Ontem, estava eu, lendo meus antigos esboços, tudo numa rabiscação só. Eis, que no meio de tanta parafernalha encontro algumas linhas dele, inacabadas. Mudo uma palavra ali, outra aqui, e ele ganha um novo significado, bem na minha frente. Ganha também um novo nome, um tanto quanto alternativo...(é Avisão mesmo, juntinho...) E aí está ele, postado, inteiro. Isso explica as duas datas de criação.

Imagem: http://br.olhares.com/um_mundo_d_imaginacao_foto1693688.html
Artista: Raquel Hipólito
Poema : Yasmin Lara

O maior amor do mundo

O melhor amor do mundo, não é aquele que te pisca os olhos e te preenche por dois segundos depois foge, indo embora com as horas enquanto elas passam, cada vez para mais longe.

O maior amor, não é o que diz a toda hora que te ama, nem aquele que você espera que bata na sua porta para, enfim, te preencher, te completar. O amor maior não precisa chegar, não precisa te dividir, nem te oprimir, nem te obrigar. Ele sempre esteve ao nosso lado nos enchendo de carinho a cada novo sorriso, em meio à todas as nossas lágrimas. Ou simplesmente pelo prazer de nos fazer bem.

Esse amor, a gente percebe todos os dias no par de olhos que nos acorda, ou nos prepara ou café, ou que simplesmente nos dá bom dia. Um bom dia sincero. Ele não precisa estar a todo instante ao nosso lado para transmitir forças, pois já faz parte de nós, ou somos parte dele. É um amor que não precisa dividir-se com a obrigação de completar.

O amor maior, é dado de graça, sem condições, sem restrições. Ele não exige ser correspondido, exige apenas nossa mais completa felicidade. Esse amor não se quebra, não torna impuro, não conhece fim.

O amor completo, a gente sempre possuiu, desde o primeiro suspiro, e teremos até nosso último sopro de vida. Gostemos ou não. Mesmo em sua ausência física, esse amor tão grande sabe enviar uma mensagem boa, que como mágica, transborda nosso peito.

Temos o maior e melhor amor do mundo nos braços de nossas mães, ou então, abrigando a memória delas. Não percebemos, nem sempre valorizamos. Buscamos ao longe o que sempre possuímos. Mas o amor de mãe é tão puro e perfeito em si mesmo, que nem se importa, perdoa nossas falhas, nossas falhas, nossos caminhos errados. Sempre nos recebe de volta com um beijo de boas vindas, e quando diz adeus, chora sinceramente e nos presenteia com um pedaço de si. E nunca o pedirá de volta.

O amor de mãe é o maior amor do mundo.
É o amor mais eterno que a podemos conhecer.


Mãe...te amo!! Obrigada por tudo que eu sou, e pelo que você é!


Texto: Yasmin Lara
Imagem:http://br.olhares.com/rosa_foto1248546.html
Fotógrafo: Ana M. Bile

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Se eu fosse mais jovem...

Se eu fosse mais jovem, aprenderia a fazer as coisas direito. E faria.
Se eu fosse mais jovem, amaria muito. Sem arrependimentos. Sem talvez, porques, ou entretantos.
Talvez,se eu fosse jovem, eu tivesse usado mais saias curtas, mais roupas malucas.
Talvez, sentisse menos medo do futuro atrás da porta,
menos medo dos fantasmas do passado debaixo da cama.
Se eu fosse mais jovem, não carregaria tanto o peso da vida em minhas costas, para não causar futuras artrites.
Não enterraria meus sonhos no subsolo.
Não deixaria que passassem em branco as minhas estações,
nem que passassem com tanta seriedade as minhas frustrações.
Se eu fosse mais jovem, quebraria todos os meus relógios,
para não me lembrar segundo a segundo que o tempo estava a passar.
Aliás, daria as costas para o tempo de vez.
Se eu fosse jovem, não me preocuparia tanto com as rugas,
não me preocuparia tanto com todos,
nem tanto com tudo.
Se eu tivesse um dia mais jovem,
jogaria no lixo todas as minhas toneladas de indagações,
deixaria de lado as minhas depressões, as minhas falsas animações.
E correria mundo, me desfaria em cores,
me enlouqueceria, morreria a todo instante de amores.
Se eu fosse mais jovem, seria mais eu.
Se eu fosse mais jovem... Sempre mais jovem.
Ah, se eu fosse um segundo perdido no tempo mais jovem...




Texto: Yasmin Lara
Imagem: www.olhares.com
Galeria: Carla Salgueiro
http://br.olhares.com/havia_tempo_foto680671.html

domingo, 3 de maio de 2009

Perco-me

Perco-me porque sou pouca,
embora grande, vária e infinita.
Sempre mutável, como a lua.
Perco-me, pois o mundo é grande,
mas só enxergo sonhos mínimos.
Poucos.
Inalcansáveis.
Perco-me, por só ter aprendido a voar,
por não querer saber andar com os pés no chão.
Meu delírio é o dia-a-dia,
e faço da realidade minha mais inconfessável alucinação.
Perco-me por não ter caminhos, por não temer as viagens,
por não ter grandes saudades , nenhuma grande paixão.

Texto: Yasmin Lara

sexta-feira, 1 de maio de 2009

Um pouco de Drummond


JOSÉ

E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, Você?
Você que é sem nome,
que zomba dos outros,
Você que faz versos,
que ama, protesta?
e agora, José?

Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio,
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José?

E agora, José?
sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio, - e agora?

Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora?

Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse,
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse...
Mas você não morre,
você é duro, José!

Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja do galope,
você marcha, José!
José, para onde?

Carlos Drummond de Andrade


Porque esse é um dos poemas mais lindos e completos de Carlos Drummond de Andrade.
Merece uma postagem para ele, sem maiores comentários.

quinta-feira, 30 de abril de 2009

Desencontro

Queria escrever-te em versos
algumas linhas que dissessem o quanto te quero aqui.
Mas nem sei se quero.
Te querer é algo tão profundo, tão vago, tão louco,
que esparramo palavras soltas, tolas e sem significado pelo papel amarelado.
Fico pela metade, entre o meu ser,o teu ser,
entre o te ter e o te querer.
E procuro nas minhas entrelinhas o significado do que sinto.
Não encontro!
Procuro nos dias vazios, embreagados de tua ausência,
um pouquinho que seja eu.
Não encontro!
Não encontro!
Não encontro!
Nem me acho!




Nada para fazer...então, vamos poetizar!!! Hehehe

Imagem: www.olhares.com
Galeria da Artista Joana Vieira
Poesia(?): Yasmin Lara

Escrever é esquecer.


Estava eu, perambulando pela internet, quando encontro uma citação de Fernando Pessoa que nunca tinha lido antes, e resolvo que ela merece uma postagem só para ela!!

"Escrever é esquecer. A literatura é a maneira mais agradável de ignorar a vida. A música embala, as artes visuais animam, as artes vivas (como a dança e a arte de representar) entretêm. A primeira, porém, afasta-se da vida por fazer dela um sono; as segundas, contudo, não se afastam da vida - umas porque usam de fórmulas visíveis e portanto vitais, outras porque vivem da mesma vida humana. Não é o caso da literatura. Essa simula a vida. Um romance é uma história do que nunca foi e um drama é um romance dado sem narrativa. Um poema é a expressão de ideias ou de sentimentos em linguagem que ninguém emprega, pois que ninguém fala em verso.

Fernando Pessoa"



Realmente me sinto tal como disse Pessoa. Escrever é, de fato, esquecer. Na verdade, quando escrevo, até eu me esqueço de mim, do que sou e como vivo. Acho que por isso gosto tanto.

Acredito, que as palavras que saem de mim, embora não contenham nem metade daquilo que eu possivelmente sinto, tapam os buracos deixados pelo meu cotidiano. Buracos que só eu conheço e que só eu entendo. Quando escrevo, crio mil coisas que queria viver e não consigo, que queria ver e não enxergo. E pior....que queria sentir e não me permito.

Escrever é um ato tão urgente quanto matar uma saudade. Completando... dizendo bem mais do que está ali explícito. Escrever é como mergulhar fundo em si mesmo, nas entrelinhas do ser, e tentar entender o que está lá dentro, bem no fundo, e transmitir a outro, que talvez não entenda -e não entenderá mesmo, na maioria das vezes -. Escrever é uma loucura, um descompasso, um desacerto, uma coisa sem explicação. Talvez por isso, seja um processo tão perfeito e completo em si mesmo.


Imagem: site www.olhares.com
Galeria da Autora Carla Salgueiro (...entrego-te as linhas que não sei escrever)

terça-feira, 28 de abril de 2009

O Trem

Espero uma novidade. E espero como quem espera um trem que nunca chega na estação. Cheia de expectativas!

E sentada num banco duro, olhando a paisagem se modificar pouco a pouco, aguardo boas novas. Boas notícias vindas de longe, por telefone ou por carta. Espero um abraço de saudades, um sorriso de bom dia. Espero que aponte, de novo, um novo dia. Mais um dia para olhar pela janela e simplesmente aguardar.


Fico na estação esperando o trem que trará o que eu sonho, ainda que eu não saiba ao certo o que é.Nunca me disseram o que buscar. E olho para os dois lados, mas está tudo vazio.O príncipe encantado não chega, a história que eu quero viver não vem, a graça louca para alegrar meus dias, também não vem.

Alguns, passam e me dão bom dia. Esses também esperam algo vindo de longe. Alguns param, conversam, ficam um tempo,me convidam para viajar com eles para longe. Eu recuso, eles tomam outro rumo. Há alguns que limitam-se a olhar para meu rosto e seguir em frente, nem parando para alguma cordialidade.

E eu, sempre sentada esperando, deixando que passe sem que eu sinta, as neves geladas, as flores que se abrem, chamando as primaveras e os verões. E eu, esperando...

Eis que chega o dia em que meu trem aponta. Da cor ferrugem com a qual eu sonhei, com o mesmo barulho pelo qual eu tanto tinha esperado.Alguém ou algo desconhecido viria me abraçar dali de dentro. E eu finalmente irira embora, numa nova vida!

Olhei-me no espelho para retocar a maquiagem e não reconheci quem olhava. Minha face já não era a mesma, era outra, um tanto mais velha. A pele estava áspera e os cabelos estavam esbranquiçados. Quando tempo havia se passado desde que comecei a esperar? Onde eu teria deixado a menininha de olhos curiosos? Caí em mim. O tempo havia roubado, e agora, só me deixava o que viria no trem. De qualquer forma, ainda valia a pena.


-Seu nome por favor, madame. - Disse-me um homem que saltava de um dos vagões.
-Deve haver algum engano. - respondi sem entender. - Estou aqui, apenas esperando.
-Todos estão. Esperando para embarcar. - Disse-me o simpático homem sorrindo.
-Não, não...estou esperando algo chegar...sempre esperei! - Disse-lhe desesperada.
-Ah...vocês são todos iguais. - E sorriu. - Teimam em esperar, sem entender que na verdade, a espera é o que vieram o tempo todo buscar.

E me levou consigo para o trem, para um novo horizonte.

Eu esperei sentada a vida toda. Nem me dignei a levantar para conhecer novos lugares,nem para pegar, nem que fosse por curiosidades, outros trens que vinham de lugares distantes. Quantos convites de embarque eu recusei...quantas manhãs eu desperdicei! No fundo, sempre tive medo!

Esperei tanto, para ir embora...passando, como quem apenas espera.


Imagem: site www.olhares.com
fotógrafa: Cristina Afonso
Texto: Yasmin Lara

domingo, 26 de abril de 2009

Poesia

Amo as palavras,
as linhas sapecas e cheias de significado
que eu teimo e tecer no papel.
Amo cada uma delas.
E seus termos,
seus lugares comuns tão ermos!
Tão complicados, tão perigosos,
simples, tão saborosos!
Lindos, completos em si mesmo.
Sempre amando...
Amo a sensação dos meus dedos na caneta,
desenhando formas, criando vidas.
Expandindo-as...infinitamente.
Amo poetizar,
neologizar,
viver!
Amo a vida, seus tons, suas cores.
E poetizo tudo, invento um todo,
ritmizando o tempo, passando-o mais devagar,
para conseguir por mais dias
a magia de com a tinta e o papel inventar.

(26/03/2009)

O primeiro poema de minha autoria que eu posto no blog. Escrever poesias é uma antiga mania minha,para me aliviar dos momentos de tédio, tristeza e tensão. Mas como sou poetiza de gaveta, é beeem raro alguém ter acesso a essas minhas linhas malucas, que além de mostrarem minhas idéias, muitas vezes contam nas suas entrelinhas, os meus segredos inconfessáveis.




Fotografia: site www.olhares.com

sábado, 25 de abril de 2009

Hiatos Criativos...


Depois de meses sem postar, nem vou tentar justificar minha ausência. Complicado...

Passo por uma fase de completo Hiato Criativo. Para quem não sabe o que é, é aquela fase da vida em que você mergulha dentro de si mesmo e não encontra nada. Nada pra dizer, nada que você ache interessante o suficiente para escrever. E como eu queria escrever!

Quando eu não sinto as palavras surgirem na minha cabeça, é como se faltasse algo importante no momento. Há vezes, em que aparecem histórias mínimas, loucas para serem compartilhadas, mas assim como vem, elas vão embora; fogem como água pelos meus dedos, deixando apenas frases incompletas no silêncio.

Queria entender essa falta de palavras, que insistem em não preencher o meu silêncio, mas como não entendo, colocarei aqui um parágrafo que adoro da Clarice Lispector sobre como não é nada importante o entendimento...


"Não entendo. Isso é tão vasto que ultrapassa qualquer entender. Entender é sempre limitado. Mas não entender pode não ter fronteiras. Sinto que sou muito mais completa quando não entendo. Não entender, do modo como falo, é um dom. Não entender, mas não como um simples de espírito. O bom é ser inteligente e não entender. É uma benção estranha, como ter loucura sem ser doida. É um desinteresse manso, é uma doçura de burrice. Só que de vez em quando vem a inquietação: quero entender um pouco. Não demais: mas pelo menos entender que não entendo."

Espero que em breve as frases inexatas façam morada em outra cabecinha e deixem que na minha volte a crescer a árvore das idéias férteis...