quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Tempos Bons - Crônica da Música Atual


Outro dia sentei-me para conversar com a família na varanda do sítio. Mesa redonda, família grande reunida, árvores, pasarinhos e o já conhecido barulho da bomba de água ao fundo. Avô, tios, pais, primos e eu, perdida naquele mundaréu de gerações. Nosso assunto favorito? Música! Três gerações de músicos e musicistas discutindo suas visões em uma varanda azul.
Meu avô recordava seus tempos de maestro, quando a juventude ainda apreciava uma boa música. Bailes de carnaval eram em clubes, ao som de marchinhas inocentes.

-Tempos bons aqueles...-Dizia ele, saudosista.

Eu conseguia imaginar fantasias brocadas, e seus donos a saltitar macarados e sorridentes ao som da música da banda do meu avô, bem mais jovem do que agora eu via. De Pixinguinha ao "Pirata da perna-de-pau".
Meus tios também resolveram relembrar.Anos 60,70...aquilo sim era música!Pixinguinha ainda era escutado, e admirado, mas a moda agora era MPB na veia. Minha mãe lembrava-se do ABBA, minha tia cantarolava músicas de Elis e Tom, no maior clima "Garota de Ipanema". Um tio meu também palpitou:

-Tempos bons eram aqueles...

Naquela época, pensei, música ainda tinha letra, as festas ainda eram bacanas e a juventude tinha por que cantar as letras de Gilberto Gil, Caetano, Betânia e Gal...tudo era lindo. O sentimento ainda misturava-se nas linhas e nas melodias. A música era a causa e a consequência de uma geração rebelde e lutadora.
Parei pra pensar. Nossa...como eu havia perdido coisas boas! Preferi ficar calada na minha cadeira tomando um refresco.Falar o quê?Tive vergonha ao pensar que a música de minha geração rima coração com popozão. Não tive coragem de cantar a música das paradas de sucesso, uma que tem cinco velocidades. Pensei nas festas de hoje, ao som de ritmo importado, com as mesmas rimas toscas da maioria das músicas nacionais. Ritmo gostoso, sem qualquer linha de sentimento.
Claro, ainda há os que cultuam o velho Pixinguinha, Tom e sua "Garota de Ipanema", Vinícius e suas letras casadas com ritmo, e se emocionam quando escutam algo novo e bom.Mas esses são a minoria...a pequena parte excluída entre tantos créus, cachorronas e saladas de fruta.
Estou na geração da valorização do ÃO.Do peitão, do bundão, do tutão(o que diabos é tutão?).Tudo com ão. Menos o cérebro e os ouvidos...esses ainda são inho. A juventude regrede pouco a pouco á época das cavernas, onde gemidos e grunhidos bastavam. E penso comigo: tempos bons eram aqueles do meu avô e dos meus tios, onde ainda havia um motivo pra cantar, pra se alegrar, até mesmo pra chorar. Falta-nos emoção, motivação.Mas quem sabe se nós desligássemos a TV no domingo e fôssemos conversar com nossos tios e avós com mais frequência nas varandas, ainda haja salvação para toda essa perversão do que melhor há para a alma: a MÚSICA!


Yasmin Lara

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