sábado, 28 de janeiro de 2012

Eu

É tudo bem devagar...
Mas divagando, se vai longe!
E eu divago,
vago nas vagas,
sem saber onde chegar.
Mas vago.
Divago.
E viajo.
Ainda que devagar.

Porque assim se chega longe.

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Quatro Paredes

Quando ele chegou, ela já estava firme e sentada sobre seu livro preferido, nem mesmo percebera a chegada daquela figura cheia de si pela porta da sala. Ela não absorvera a aura, contava com a solidão. E abraçava-a como uma velha amiga. Ele chamou-a docemente pelo nome. Ela olhou desconfiada para o homem parado ao seu lado como se não o conhecesse e voltou a namorar as palavras com um amor que há muito não distribuía. Uma paixão que a muito ele não via.

As palavras e os sonhos tonaram-na poderosa e única. Linda. Bela. Perfeita e completa em si mesma. Naquele seu mundo impenetrável ela encontrou-se e não havia brechas para que ele, aquele lindo e confiante homem, entrasse. Não havia lugar para ninguém. Nem para os filhos. Nem para as horas. Nem para o pranto. Era ela e apenas ela, aprendendo a conviver com aquilo que mais temera a vida toda: ela mesma. Aquela perfeição irritava o mundo e o homem. Era irritante a leveza de suas palavras, as notas deliciosas de sua voz. Era irritante aquela inteligência altamente dispensável naqueles dias. Era quase insana a calma que não existia antes e que, agora, dominava aquela personalidade obscura. Eram medonhos aqueles olhos vazios que o fitavam de vez em quando.

Era odiosa a sua liberdade nas quatro paredes da sala, o seu sorriso confiante para si mesma toda vez que se via sozinha. E ele sentia medo, um medo imenso que devorava seu coração e sua alma. Mal suportava vê-la. Ela era imensa. Ela era vaga. Ela não tinha respostas, e ele, tão simples, não sabia como lidar com aquelas variáveis.

Ela era horrenda, um monstro perfeito e belo que não lembrava em nada aquela pequenina e frágil figura de anos atrás. Mas ela sempre fora medonha, e ele não quisera perceber. Sempre tivera aquelas pequenas idéias, aqueles grandes sonhos que não o incluíam. Ele bem que pensara ter dominado com palavras gentis os pensamentos e o coração de sua pequena. Mas se enganara. Ela era dela e somente dela. Sempre o fora, percebia-o agora. Não mais se dividia. Estava completa. Ele era dispensável. Era um papel de parede naquela sala fria onde ela, presa em pensamentos, não percebia sua presença inflexível a seu lado. Ela já não mais temia. Não mais lutava contra sua natureza selvagem e viajante. Ela vencera. Ela fugira do controle absoluto que seu coração uma vez lhe impusera. Ela não se importava, e isso, para ele, era pior que a morte lenta. O amor se fora para algum outro e longe lugar, ou quem sabe escondera-se atrás daquela força inabalável que ela desenvolvera. Os sonhos dela não o cabiam e ela não tinha o que mais perder. E nem ligava. Ela era a eternidade naquele mundo onde ele não existia. Ele era nada. Ela, tudo.

Ele foi-se embora, mais uma vez derrotado. Jogou fora as rosas que levara para casa, com o arrependimento de quem já deveria ter entregue o agrado há anos. Ela já não ligava para o perfume. Nem para ele. Nem para o mundo. Ela não mais existia.

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Ela.

Entre encantos e desencantos,
nada mais resta,
além de cantar meu canto.
Porque a música, meus amigos,
não acaba nunca.
É eterna em si mesma.
E encanta...

domingo, 28 de agosto de 2011

Dois nós

Em ti,
era epenas eu,
eu,
eu,
e sempre mais de mim.
Sozinha.
Deusa.
Completa em mim mesma.

Quando só,
apenas tu,
tu,
tu,
e cada vez mais de ti.
Dividida em dois.
Parte que sou e parte que és.
Incompleta em sua ausência.

Mas ainda que em memória,
eternamente ligados por dois nós.

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

O Fio

Hoje achei um fio branco emaranhado ao loiro acinzentado da minha cabeça. Pequenino e tímido, escondido atrás de meus cachos embaraçados. Chegou cedo. Creio que quem o trouxe foi meu mau gênio, ou quem sabe até, as minhas más vontades. Talvez aqueles sonhos a muito abandonados ao relento, pegando orvalho na varanda de minha alma e enferrujando pouco a pouco.

O pequeno fio branco de meu cabelo não veio com a sabedoria dos anos. Ele veio simplesmente com as frustrações de um instante, com as revoltas e mil voltas do meu coração inesgotável e impaciente. Por fim, acabei por não preocupar-me com aquele pequenino pedaço tangível de tempo passado, pois depois de uma breve e vaga reflexão de um minuto, percebi que ele veio mostrar-me algo grande que ainda não sou capaz de compreender-e talvez nunca o seja-, veio mostrar-me algo bem maior que eu e que está além de minhas vontades...


Anil

Por Márcio Vandré e Yasmin Lara

Eu não gosto do céu plúmbeo.
Ele enegrece a alma, o dia, as flores
Faz murchar amores e azedar o mel.
Para meus relógios, faz nascer meus ódios
Embebeda-me de loucura.
Ah, o céu é tudo...Início e fim
Eu prefiro que ele se vista com o mais belo azul,
para iluminar as horas que insistem em passar.
Quero mais é ver a clareza das nuvens, tão alvas e sinceras.
Contando verdades, escondendo saudades,
Ensinando e vivendo o amor que nos cerca
O céu claro une.
Revigora o coração.
Para esse negro céu eu digo: não!
Quero permanecer são nesse mundo louco.




...Não existe pessoa melhor para se dividir um poema...

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Necessidade (24/09/2009)

De mil coisas despeço
de outras mil me desfaço.
mas há, enfim, coisas que muito quero
e que sem elas não passo.

É a pose,
o momento,
o drama.

O amor,
o céu,
a chama.


O sonho,
o rosto,
o dia seguinte.

O sorriso,
o abraço,
o amigo ouvinte.


Beijo,
Lua,
um disfarce.

Carinho,
Meta,
Disparate.


É a palavra,
o poema,
o termo.

O lugar-comum,
o azul,
o ermo.


Não vivo sem o conto,
o canto,
o grito.

Sem o gesto,
uma idéia,
o tempo infinito.

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Lacuna

Nessa emoção eu vago,
nado,
mergulho,
me afogo.
E acordo.
É tudo vago,
e divago...
Para longe de mim,
Para longe de ti.
Para longe de tudo.
Para bem perto do céu azul-anil onde sonho.
E vago...
Nesses espaços vagos
que estão entre mim e o mundo.

domingo, 13 de março de 2011

Canção

Pensando vivo,
e vivendo eu sinto.
Por sentir eu canto
e por cantar eu vivo.
Canto e sei que essa canção é nada.
Mínimo pedaço castigando o infinito.
Mas é por viver que eu canto,
Por cantar que eu sinto,
Por sentir eu vivo,
Por viver que penso.

E é por pensar que morro.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

O novo

O ano começou com o céu chorando cupiosamente, a chuva dá-me uma nostalgia que soma-se ao já conhecido sentimento de pequena saudade do que passou. O ano, a primavera, a infância, as horas. Dá-me saudade quando soltam os fogos de artifício anunciando, tal como trombetas, o ano novo que arromba meus dias para entrar. E surgem perguntas. Como será a partir de agora? Inovar? Amar? Trabalhar? Ser? Prometo mil coisas: sentir mais, escrever mais, ler mais, amar bem mais. Quero tudo com a força de quem renasce, de quem ressurge, de quem se modifica. Sou outra a cada ano, a cada nova lua, a cada novo dia. Sou muitas, outras, numa mesma casca-corpo. Uma mesma alma-vida.

O Novo Ano só será novo se eu desejar que o seja, sem a minha vontade, os dias serão apena idênticos; recomeçando uma contagem do início -tal como contar o infinito voltando ao 1 sempre que se chega ao 10-. Eu não quero repetição. Sempre detestei o similar, o previsível, o esperado. Gosto mesmo da emoção de não saber, do complexo sentimento ansioso por esperar o que vai chegar, do imaginar o que não existe, do criar. Eu sou uma mulher de desmontagens. Sou um ser humano intenso. Sou (e amo ser) uma interrogação. Sou o novo ano que chega para mim como um presente, como surpresa incerta. Ele será o que eu quiser. Molda-lo-ei tal como desejar. Sou rascunho, deixo a perfeição da arte final para os que tem paciência em não ser de carne e osso.

Uma certeza eu tenho, a única além da morte certa. Sou pequena. Mínima. Diminuta. Enquanto deixo entrar mais um ano pelas minhas portas e janelas, enquanto ganho rugas e mais rugas de experiência, enquanto vou desfolhando-me pouco a pouco, o mundo vai aniversariando tmidamente. Caminhando lentamente rumo ao infinito. Um dia desses não deixarei mais pegadas por aqui. E o mundo? Ah...ele continuará a seguir.